Novela · Capítulo 2 Margarida Classificação: livre para pessimistas

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Margarida · ¡Mi corazón a mil por hora! · Capítulo 2

O moinho

Ela descobriu que é protagonista. E o moinho começou a girar.

No capítulo anterior: uma carta, um carimbo de oito semanas e um homem na porta que talvez nem estivesse lá.

Na garagem de uma equipe de corrida, uma moça de dezoito anos, portuguesa, de cabelo castanho ondulado e argolas douradas, de camisa de equipe preta e dourada, abaixa um jornal sensacionalista aberto e encara o vazio, chocada, com a boca entreaberta.

Na garagem, um jornal. Na página… ela mesma.

MargaridaDivorciada, feliz por imposição da federação… e agora protagonista de uma novela mexicana.

Um homem grisalho de barba, boina preta e óculos escuros, de terno branco, grita sacudindo um jornal aberto, com uma veia saltando na testa, num escritório cheio de troféus.

O patriarca leu também.

O patriarcaMargarida, tu viu que chamaram teu ex de Esperança?!

Close dramático de telenovela, em luz dourada de fim de tarde: uma moça de dezoito anos, portuguesa, de cabelo castanho ondulado e argolas douradas, olha para longe com uma única lágrima brilhante descendo pelo rosto e um meio sorriso amargo.

Violinos.

MargaridaPassei anos à espera que a Esperança morresse… e afinal foi o casamento que morreu primeiro.

Ao pôr do sol, num campo de Portugal, um moinho de vento branco de telhado cônico gira as pás de pano com força. À frente, de costas para a câmera e com o cabelo castanho ondulado ao vento, uma moça de dezoito anos, portuguesa, de cabelo castanho ondulado e argolas douradas, olha as pás girando, sozinha.

Um dia, para um piloto que gastava pneus, ela sugeriu quatro rodas de moinho. Mal sabia ela que o moinho gira para ela.

Margarida (para o inglês, depois da corrida)Talvez pneus de betão armado. Ou quatro rodas de moinho.

Numa garagem de corrida em penumbra, uma moça de dezoito anos, portuguesa, de cabelo castanho ondulado e argolas douradas, olha de lado, por cima do ombro, para um homem alto e louro de macacão de mecânico, de costas e desfocado, que inclina a cabeça como quem concorda. Entre os dois, um carro marrom e dourado e um raio de luz.

E na garagem, alguém concorda com ela. De novo.

O patriarca, de longe (numa reunião, semanas antes)Sule, para de concordar com a portuguesa!

Quatro rodas de moinho… ou um coração que não para de girar?

Ele concorda com ela por convicção… ou por amor?

¡No se lo pierdan!
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