Depois de Vancouver · 2021 Edição Nº 5 Preço: cinco sacos de milho (seis semanas de jornal acumulado)

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Em visão vermelha de máquina, um helicóptero estacionado num hangar, de porta aberta e assento vazio; no chão, um saco de cimento, fita adesiva e botas de borracha. Plantão · Disse-me-disse do Paddock O helicóptero voltou. Está estacionado. Por enquanto. A Família encomendou à redação a apuração de três erros nos boxes de Munique. A redação entrega, com seis semanas de atraso e a nota fiscal. Leia a fofoca →

De volta das férias · Vancouver, setembro de 2021

O filho preferido

O Max ganhou em Vancouver, a pista onde perdeu a roda. Na entrevista, perguntaram ao DON qual dos dois é o melhor. “André Gomes.”

por El Linhaça, ainda com areia no sapato

Aviso da redação · Par avion

Esta redação esteve de férias. Seis semanas. Se a federação pode passar 56 dias sem votar nada, a redação pode passar 42 sem publicar nada, e passou. Foi no Índico, nas Maldivas. Mergulhou. Viu coisas lá embaixo que não pode contar, e não conta.

Na volta, a porta não abria. Atrás dela havia uma pilha: as edições que a redação teria publicado se estivesse aqui. Estão todas nesta página, na ordem em que caíram no chão. A mais nova vai em cima.

No corredor escuro de um prédio antigo, a porta de madeira de uma redação está entreaberta, empurrada por pilhas de jornais amarelados que tomam a sala. Em cima da pilha, um cartão-postal de praia com palmeira. Na frente da porta, uma mala surrada com etiqueta em branco, um chapéu de palha, chinelos, uma máscara de mergulho com snorkel e um rastro de areia. Em cima da mala, um pombo cinzento de óculos escuros redondos. 2021 09 ██ 08:15
A volta. Seis semanas de jornal na porta, areia no chão e o fotógrafo da casa ainda de óculos escuros. A porta só abriu depois do café.

1. O filho preferido

Sala de entrevista coletiva vista do fundo, por cima das cabeças dos jornalistas. Ao fundo, atrás de uma mesa cheia de microfones, um homem corpulento de terno branco, boina branca e óculos escuros, imóvel. Na primeira fila, um piloto de camisa azul-escura, de costas, segura um troféu dourado no colo e abaixa os óculos. No corredor, alguém se abaixa para pegar uma caneta caída no chão. 2021 09 ██ 17:40
A coletiva — O troféu no colo de um, a resposta na boca do outro. No corredor, alguém derrubou a caneta.

Vancouver é a pista onde, segundo os arquivos, o Max Porter já correu com três rodas. Voltou lá em setembro com quatro, e com medo. Na sexta, fez o melhor tempo do treino, 98 milésimos à frente do André. No sábado, o André devolveu com juros: a pole por 197 milésimos.

Na largada, o Max pulou na frente. O André, segundo o rádio da equipe (que alguém ouviu, porque a redação estava na praia), respondeu ao engenheiro que só um instante, estava “terminando uma mensagem de bom-dia” para a esposa. Ultrapassou na quarta volta, por 84 milésimos, e confessou pelo rádio: “Things got pretty hairy there!”

Liderou até a última volta. Nas duas últimas curvas, o Max passou por dentro, com pneus melhores, e ganhou. Pelo rádio, os dois disseram a mesma coisa, em corridas diferentes. O André, em Munique: “I am a driving genius!” O Max, em Vancouver: “I am a driving genius!” O gênio da Cruzeiro Real muda de carro a cada corrida.

O empate. O Max ganhou a corrida e saiu com 8 pontos. O André chegou em segundo e saiu com 8 também: seis pelo segundo lugar e dois pela pole. “O Senhor recompensa a dedicação, não apenas o resultado”, explicou o André, segundo quem estava na sala. Na moeda interna da equipe, a MilhoCoin™, o segundo lugar rendeu mais que a vitória: 11 a 10 para o André.

A coletiva. Uma jornalista da Motorsportif fez a pergunta simples: qual dos dois pilotos é o melhor? O DON respondeu “André Gomes” e mais nada. A jornalista lembrou que o Max tinha acabado de vencer. “Eu sei. Eu tava lá. Recebi até o troféu.” O Max estava na primeira fila, com o troféu no colo.

A redação não diz que o DON tem filho preferido. Diz que, perguntado, ele não precisou pensar.

FLAGRA FM 101,3 Ouça Vancouver, com quatro rodas A FLAGRA FM verdadeira, a da vírgula, refez a transmissão que outra rádio pôs no ar em nome dela: o Trovão aos berros, o rádio do Max e do André, a mensagem de bom-dia pelo caminho e uma ouvinte na linha. Em inglês, a língua do paddock. Ouça na FLAGRA FM →

2. A pilha na porta

As edições que não saíram, na ordem em que foram parar no chão. Cada uma traz a data em que teria circulado.

  1. Não circulou

    O FLAGRA23 de julho

    O pastor vai casar

    O André escreveu ao DON pedindo conselho: “Sei que ela não é perfeita, mas, na minha idade, acho que deveria começar a aceitar o que consigo encontrar.” Ver a seção 5.

  2. Não circulou

    O FLAGRA8 de agosto

    Munique: o recém-casado leva tudo

    Pole, vitória e volta mais rápida para o André. O Max em segundo. Três erros nos boxes. Ver a seção 3.

  3. Não circulou

    O FLAGRA12 de agosto

    O DON corta o dízimo

    O André passava o expediente na oficina mandando bom-dia à esposa, com versículo e foto do troféu, e tentou instalar um carregador de celular na bancada de testes do motor. O DON: “A PARTIR DE HOJE, NÃO PAGO MAIS DÍZIMO PRA TUA IGREJA!” O André perdoou. O Max perguntou se também estava dispensado e foi comprar outra câmera para o documentário.

  4. Não circulou

    O FLAGRA18 de agosto

    Aniversário de cem mil dólares

    O assistente avisou que era aniversário do André. O DON: “DE NOVO?! MAS ESSE FILHO DA PUTA JÁ FEZ ANIVERSÁRIO ANO PASSADO!” A festa saiu por US$ 100 mil. O bolo, de três andares em forma de capacete, dizia: “Parabéns, André! Mesmo ego. Mais voltas.”

    “Another fucking aniversário, he demands!” — Ken Obi, segundo a ata

  5. Não circulou

    O FLAGRA20 de agosto

    Sete milhões para saber se chove

    O Instituto Cobra Coral, a meteorologia da equipe, pediu mais US$ 7 milhões. O DON: “POR ESSE PREÇO EU COMPRO SETE MILHÕES DE GUARDA-CHUVAS E DISTRIBUO NO PADDOCK!” Ver o Oferecimento.

  6. Não circulou

    O FLAGRA25 de agosto

    A federação entra em recesso

    A GMA rejeitou treinos mais longos e anunciou 56 dias sem votação. A redação leu, achou justo e foi fazer as malas.

    “Twelve fucking minutes, enough they claim! From sacred milho, engineering miracles we must produce!” — Ken Obi, segundo a ata

  7. Não circulou

    O FLAGRA29 de agosto

    Sydney: o mecânico tira a vitória do Max

    A pole de pneu de seco na chuva, o erro de 2,244 segundos e a caixa de marchas que não devia chegar ao fim. Ver a seção 4.

  8. Não circulou

    O FLAGRA29 de agosto

    O francês é pego. A Família, não.

    A GMA achou peça ilegal no carro de Jean-Pierre Gérard, da Firebird. No da Cruzeiro Real, a caixa de marchas com 55% de confiabilidade, nada. O DON mandou emoldurar o laudo. Em Vancouver, o nome do francês apareceu de novo na lista de punidos.

    “No fucking rules broken! A milagre, officially certified we have!” — Ken Obi, segundo a ata

  9. Não circulou

    O FLAGRA30 de agosto

    O McUngido

    O André disse ao The Evening Herald que “os astros se alinharam” para ele, e o jornal pergunta se o bom humor vem de um patrocínio secreto com uma rede de fast-food. Segundo quem estava na sala, o André imagina “um hambúrguer com duas carnes, representando meus dois títulos”. Ao Max, ofereceu “uma porção de batatas”.

  10. Não circulou

    O FLAGRAComeço de setembro

    O carro virou outdoor

    Três patrocinadores novos (Cupcake, Shimizu e Max Velocity), US$ 9,7 milhões de entrada e US$ 67 milhões em caixa. O Max descobriu que um deles tem o nome dele e pediu para ser o rosto da campanha. O patrocinador quer o carro.

  11. Não circulou

    O FLAGRA12 de setembro

    Menos milho, mais urânio

    O projetista Ken Obi terminou uma caixa de marchas nova, a Sabugo Adubado Mk I: 1.033 pontos de desempenho e 20% de confiabilidade. O slogan, do próprio laboratório: “Less corn. More uranium.” O milho é enriquecido. O urânio, empobrecido. A redação acha que é ao contrário que se costuma fazer.

3. Munique

O André tinha acabado de casar e chegou a Munique com o melhor tempo do treino e uma hashtag: #LoveThisTeam. Fez a pole por 23 milésimos. Venceu. Fez a volta mais rápida. O Max largou em terceiro e na segunda curva já era quinto. Terminou em segundo.

A chuva tinha sido prometida. Na véspera, a previsão detalhada mostrou sol, e o DON ligou para o Instituto Cobra Coral, segundo quem ouviu: “EU PAGUEI SEIS MILHÕES NUM INSTITUTO PRA VOCÊ ME INFORMAR QUE EXISTE ENCANAMENTO NA ALEMANHA?!” E, sobre a renovação do contrato: “NEM TU VAI ASSINAR A RENOVAÇÃO SE CONTINUAR ASSIM!” No fim da corrida, choveu. O Cacique explicou: “Houve um pequeno atraso na assembleia celestial.”

A redação não diz que a meteorologia da Cruzeiro Real funciona sob ameaça. Diz que funcionou depois dela.

E houve os boxes. Quatro paradas, três erros, três funcionários diferentes. A redação tem o que fazer com isso: ver a coluna Disse-me-disse do Paddock.

“Three fucking mistakes, one corrida!” — Ken Obi, segundo a ata

4. Sydney

Na classificação, a pista encharcou no fim. O Max tinha feito o tempo antes, de pneu de seco, e ficou com a pole. O André, com a caixa de marchas de 55% de confiabilidade, o Rastelo Quebrado, ficou em terceiro. A imprensa chamou o Max de “lenda” e “intocável”. Ele leu os comentários em voz alta. Seis vezes.

Na corrida, o Max liderou de pneu intermediário e reclamou pelo rádio, em primeiro lugar, que precisava trocar. Na parada da volta 12, quem trocou foi Lars Sabic, o mesmo mecânico do erro de Yokohama, e errou de novo: 2,244 segundos a mais. O Max caiu para 16º, voltou até segundo e terminou atrás do André por 1,963 segundo. Em outro documento da equipe, 1,971. Nos dois, menos que o erro.

Pelo rádio, o Max perguntou quem era o idiota que tinha errado os pneus e disse que ele precisava ser demitido. O DON não deu entrevista sobre o assunto. Deu outra, sobre o segredo da dobradinha: “Well, clearly I perfected the strategy!”

O Rastelo Quebrado, que na fábrica tinha 20% de confiabilidade, chegou ao fim e venceu. O Lars não chegou ao fim de nada. Para onde ele foi, ver a coluna Disse-me-disse do Paddock.

“Twice, the fucking desastre he delivers!” — Ken Obi, segundo a ata

5. O casamento

O André casou. Com quem, a redação não sabe, e não é a única. O convite, que circulou pela sede, anuncia o matrimônio de “ANDRÉ GOMES, Bicampeão, Pastor, Ministro da Velocidade e Escolhido do Senhor” e de “SUA FUTURA ESPOSA”, com o “nome preservado até que o departamento administrativo consiga descobrir quem ela é”.

O resto do convite, a redação reproduz por fidelidade:

  • local: Igreja da Santa Pole Position de André Gomes;
  • presentes sugeridos: MilhoCoin™, peças de motor, água benta e espelhos para o noivo;
  • celebração: “O próprio André solicitou celebrar a cerimônia, mas foi informado de que precisa estar presente como noivo”;
  • mensagem do noivo: “Reconheço que é uma responsabilidade enorme para ela, mas confio que o Senhor lhe dará forças.”
Altar de igreja decorado de azul e branco, visto por uma porta lateral. No lugar do buquê, um capacete de corrida azul e branco numa almofada de cetim, entre flores brancas. Ao lado, um espelho de moldura dourada virado para o lado do noivo e uma pilha de troféus. No tapete vermelho, do lado do noivo, um par de sapatos pretos e um pedestal de microfone; do lado da noiva, só uma cadeira branca vazia com laço. 2021 07 ██ 19:00
A igreja da Santa Pole Position — O capacete no lugar do buquê, o espelho virado para o noivo. A cadeira da noiva, a redação fotografou vazia.

6. A sessão espírita

Antes de Vancouver, a Família tentou curar o trauma do Max. Segundo uma fita sem rótulo que circulou pela oficina, sentaram-se todos em roda, à luz de velas, e o Cacique Cobra Coral serviu o que chamou de “ayahuasca do Forecasting Centre”. A reserva, Margarida Facucho, avisou que ia fingir que bebia, “como adulta funcional”, e fingiu.

O Cacique viu Vancouver, chuva, o Max deitado numa cama e, debaixo da cama, a roda: “Ela não está parada. Ela respira.” Ela sussurrava “pit confirmed”. E ele viu um homem na janela, molhado, com uma chave de roda, “como se pedisse perdão”. O DON deu o nome dele: “Sabic.”

A redação anota. A roda de Vancouver foi do Neydson Bölkhe, não do Lars Sabic. Os dois, segundo o próprio DON, estão hoje no mesmo oceano. O médium chamou o fantasma errado. Ou chamou os dois, e só um atendeu.

O Max não aguentou: “MAKE IT STOP.” O Sr. Süle jurou ter ouvido a roda. O projetista resumiu:

“Terrifying, porra, this fucking vision is.” — Ken Obi, segundo a fita

No fim, ouviu-se uma coisa redonda rolando no corredor. A câmera caiu. Em Vancouver, o Max ganhou com quatro rodas. A sessão funcionou. O preço não se sabe.

Quadro de fita VHS, escuro e granulado: numa oficina mecânica à noite, uma mesa redonda à luz de velas. No centro, sobre um pano azul, uma cuia com líquido marrom, um pneu de kart deitado, uma porca de roda e um incenso soltando fumaça. Em volta, só mãos e braços, sem rostos. No canto, um pneu de carro encostado, como se tivesse rolado até ali. 2021 09 ██ 23:33
A sessão — Velas, uma cuia, um pneu de kart e uma porca de roda num pano azul. A meteorologia também faz atendimento espiritual.

7. A redação estava certa

A edição 4 perguntou se o DON tinha pago o milhão do presidente da federação, e insinuou que a votação comprada seria a do veto ao Weight Stripping. Foi. Aprovado por 8 a 3. O DON comemorou a “primeira vitória eleitoral comprada”. O Sr. Süle lembrou que, tecnicamente, se pagou pela inclusão na pauta, e que a aprovação veio dos votos.

A redação estava certa, e na praia. A atualização está no alto da edição 4.

8. Cuidado com imitações

Na ausência da redação, circularam pelo paddock três textos assinados por este jornal (um “El Linhaça — Edição especial”, um “EL LINHAÇA — EXTRA!” e um “O Flagra — Escândalo internacional”) e duas transmissões da “FLAGRA FM”. A redação não escreveu nenhum.

A redação não sabe quem foi. Registra que o falsário tinha acesso ao rádio da equipe, às atas das reuniões e ao troféu de Vancouver, e que escreve muito bem sobre a Cruzeiro Real. Quem tem tudo isso, a redação deixa para o leitor.

A redação também não vai processar ninguém. Vai cobrar. Pela tabela do “Quem sou eu?”, revelar uma fonte custa o dobro do que a fonte pagou. Por analogia, os direitos de cada texto falso custam o dobro do que o falsário cobrou. Como ele não cobrou nada, a redação aceita o dobro de nada, em sacos de milho.

Horóscopo do Grão

Doze sementes, doze destinos O astrólogo da redação não lê estrelas: lê relatórios internos. Descubra o seu grão, quem tem cara de quê e quanto custa uma previsão melhor. Com a Zoltaça, que realiza desejos sem estar na tomada. Leia o seu signo → Milho Feijão Amendoim Coco Girassol Arroz Café Mamona Mostarda Soja Chia Linhaça

9. Classificados

Esta seção é um oferecimento de Toró & Urucubaca Chuva para você. Azar para os outros. O DON disse que, por sete milhões, comprava sete milhões de guarda-chuvas. O Pajé Toró, que antes de ser pajé vendia guarda-chuva no camelô, manda dizer que ainda tem estoque e faz por menos. “Mas pra que guarda-chuva, DON? Chuva a gente manda no carro do outro.” Conheça os pacotes →

Vende-se ichor, a merda dos deuses. Nitro de origem divina, uma gota por tanque. US$ 1 milhão o frasco, o mesmo preço de uma votação. Tratar com Hermes. Ver o anúncio →

Procura-se o nome de uma noiva. Recompensa: o departamento administrativo agradece.

Vende-se dízimo, sem uso desde 12 de agosto. Tratar com o pastor, que perdoa.

Compram-se sete milhões de guarda-chuvas, no atacado. Tratar com o DON. Meteorologistas, não insistir.

Vende-se cartão de aniversário, nunca usado. O destinatário preferiu a festa.

Achados numa oficina: uma cuia, um pneu de kart e uma porca de roda num pano azul. Cheiro de incenso. O dono não quer de volta.

Procura-se quem acertou a única parada sem erro de Munique. Para conversar. Assinado: a cultura da empresa.

Aluga-se redação, seis semanas de uso, com pilha de jornais e areia. Entrega imediata: o inquilino voltou.

Todos os classificados →

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