Serviço encomendado
O helicóptero voltou. Está estacionado. Por enquanto.
A diretora do departamento disciplinar da Cruzeiro Real pediu à redação que investigasse três erros nos boxes de Munique. A redação estava de férias. Entrega agora, com seis semanas de atraso e a nota fiscal.
por El Linhaça. Fotos: Agente 12, que não tirou férias
No dia do GP de Munique, a Família pediu ajuda a esta redação. Por escrito, por telefone e aos gritos. Queria saber por que três funcionários diferentes erraram nos boxes na mesma corrida.
A redação estava de férias. Voltou, abriu a caixa de entrada, leu o pedido e fez o serviço. Está tudo abaixo: o pedido, o arquivo, o hangar, a apuração, a resposta sobre o Neydson Bölkhe e a nota.
A redação não acusa ninguém. Põe lado a lado. E cobra.
1. O pedido
No dia do GP de Munique, chegou um e-mail. Remetente: Chen Heng, diretora do C.H.E.N.™, o Centro de Harmonização e Encaminhamento de Negligentes da Cruzeiro Real. Destinatário: “Redação Investigativa de O Linhaça”. O nome está errado. O endereço, certo. Prioridade: máxima.
“Por determinação expressa do DON Fernando Augusto, solicitamos a abertura imediata de uma investigação sobre a sequência de falhas operacionais sofridas pela Cruzeiro Real Automobilismo durante o GP de Munique.”
A lista vinha anexa: Napoleão de Castilhos, nos pneus do Max, 3,829 segundos; Narciso Kist, no macaco traseiro do André, 1,987 segundo; Alexandre De Oliveira, nos pneus do André, 2,925 segundos. E quatro perguntas: se há vínculo entre os três; se houve contato com equipes rivais; se foi falha de treinamento, de supervisão ou de equipamento; e “a inexplicável capacidade da equipe de cometer erros com funcionários diferentes em sequência”.
E um P.S.: “O departamento jurídico deseja evitar a expressão organização criminosa no título da reportagem antes da conclusão das diligências.” A redação cumpre contrato. Confira o título.
O telefone também tocou. Segundo quem estava na sala, o DON gritava ao fundo: “CHEN! CHAMA O LINHAÇA, PORRA! TRÊS ERROS DE TRÊS FUNCIONÁRIOS DIFERENTES! ISSO NÃO É PIT CREW! É UMA ORGANIZAÇÃO CLANDESTINA DENTRO DA NOSSA ORGANIZAÇÃO CLANDESTINA!”
Quem atendeu foi a secretária eletrônica. O e-mail recebeu a resposta automática:
Obrigado pela mensagem. A redação está de férias, sem data para voltar. Para assuntos urgentes, procure o pombo. Para assuntos muito urgentes, procure o pombo e leve milho. Este endereço não guarda segredos: vende.
2. A pasta vazia
Dos pombos da redação, só um não foi à praia: o Agente 12, aquele que comia milho numa tigela de porcelana que a redação nunca comprou. Quem aceita envelope de qualquer um não tira férias. Ficou no parapeito e viu tudo.
Viu, por exemplo, a manhã em que a Chen voltou ao escritório “carregando uma pasta vazia”, segundo o próprio arquivo da Família. Na véspera, a pasta tinha conteúdo. A redação conseguiu o conteúdo, que é o que vem a seguir. Como, não diz. O Agente 12 recebeu uma tigela nova.
3. O arquivo
A redação não acusa ninguém. Põe lado a lado.
O Lars. Errou os pneus do Max em Yokohama e levou advertência. Errou os pneus do Max em Sydney, por 2,244 segundos, e o Max perdeu a corrida por menos que isso. Tinha 17 de habilidade em pneus e entrou descansado nas duas vezes. No tribunal da Família, segundo quem estava na sala, havia na mesa duas fotos, uma caneta BIC e um aquário. O Lars tentou se defender: “Mas senhor, eu tenho dezessete em pneus!” O DON: “E AGORA VAI TER DEZESSETE ATMOSFERAS DE PRESSÃO PRA ESTUDAR, SEU FILHO DA PUTA!”
A ordem de transferência lista a bagagem: “Uma caneta BIC, um crachá cancelado e sapatos de concreto personalizados”. O lema da operação, do próprio documento: “BIC CRISTAL™ — ESCREVE ATÉ O FIM. SABIC — AFUNDA ANTES.”
A redação não diz que o Lars foi jogado no mar realocado para um cargo com vista para o oceano. Diz que o documento diz.
4. O hangar
Na manhã seguinte ao tribunal, segundo o mesmo documento, “um helicóptero desaparece sobre o horizonte”. Voltou. O Agente 12 o fotografou de novo no hangar (ver a foto do alto da página), estacionado, como em Dubai, quando o registro dizia que ele “permaneceu estacionado, por se tratar da primeira ocorrência”. Tem uma espiga no rabo, o tanque cheio e o assento vazio. Ao lado, um rolo de fita que a redação prefere chamar de mordaça kit de depilação e um saco de cimento calçado ortopédico de alta estabilidade.
Agora há cinco funcionários com um erro e um com zero. O helicóptero tem um assento.
5. A apuração
Ao C.H.E.N.™, as respostas, na ordem das perguntas.
1. Há vínculo entre os três de Munique? Há. Napoleão, Narciso. Antes deles, Neydson. Antes de todos, Natan, o Jaguara. Dos nove nomes do arquivo, quatro começam com N: dois já foram ao Índico, dois estão na fila. O Alexandre não começa com N, mas tem um no meio, escondido, o que é pior. A redação não acredita em coincidência e recomenda ao departamento pessoal da Família rever quem contrata as letras.
2. Houve contato com equipes rivais? A redação encontrou, nas fotos do Agente 12 em Munique, um homem de macacão sem equipe perto dos macacos hidráulicos. Ninguém o contratou. Ou alguém contratou. A redação conhece o tipo: é o Técnico, que a Toró & Urucubaca manda “quando a macumba falha”, e cujo lema é “Nem toda porca solta é culpa do mecânico”. A redação não afirma que foi ele. Afirma que ele estava lá. (Este item foi pago pelo patrocinador para sair em letra pequena.)
3. Foi falha de treinamento? O relatório do Sr. Süle, que a redação leu de cabeça para baixo, diz que a parada mais rápida de Munique levou 6,210 segundos, 3,375 a mais que o recorde da temporada, e que “nenhum dos três incidentes foi particularmente perigoso”. O DON perguntou se havia alguma coisa boa no relatório. O Sr. Süle: “Uma das quatro paradas ocorreu sem erros.” O DON: “UMA?!”
“A fucking milagre! One correct pit stop, we have achieved; an investigation into this competence, urgently we must begin!” — Ken Obi, segundo a ata
A reserva, Margarida Facucho, sugeriu identificar o responsável pela parada certa: “É claramente alguém que ainda não compreendeu a cultura da empresa.” A redação concorda. Pela lógica da casa, o suspeito é quem acertou. O nome dele está à venda.
4. Por que funcionários diferentes erram em sequência? É a política da casa, e está na ata: “uma advertência para primeira ocorrência e encaminhamento disciplinar para reincidência confirmada”. Cada um tem direito ao seu primeiro erro. Não é sabotagem. É rodízio.
Conclusão: não há prova de sabotagem. Há um padrão. O primeiro erro é de graça. O segundo é de helicóptero.
6. E o Neydson?
Esta coluna perguntou, antes das férias, o que tinha acontecido com o Neydson Bölkhe depois da sentença. O DON respondeu, sem querer, em três reuniões diferentes, segundo quem estava em cada uma:
- “MOSTRA PRO FANTASMA DO NEYDSON QUEM MANDA NESSA PORRA!”;
- “CHEN, CONFERE SE O FANTASMA DO NEYDSON NÃO TÁ NA ESCALA!”;
- “O NEYDSON VAI ASSISTIR À REPRISE NO FUNDO DO OCEANO!”.
Na sala de reuniões, há agora um retrato dele com a inscrição “FUNCIONÁRIO DO MÊS — RECURSOS SUBMARINOS”.
A redação, que passou as férias mergulhando no Índico, não confirma nem desmente. Trouxe um souvenir.
E informa só mais uma coisa. Lá embaixo, alguém perguntou se tinham conferido as porcas.
7. A nota fiscal
8. Enquete: quem é o próximo?
Cinco funcionários com um erro. Um com zero. Um helicóptero. A redação quer ouvir o leitor. Votar em quem tem zero custa mais caro, porque dá mais trabalho.
Quem é o próximo? Votação aberta
Edervan Dualib
Dubai. O primeiro da fila, por antiguidade.
Voto: 1 MC
Napoleão de Castilhos
A parada mais rápida do grid, com erro. Um talento.
Voto: 1 MC
Narciso Kist
O macaco traseiro. E o N.
Voto: 1 MC
Alexandre De Oliveira
O N escondido.
Voto: 1 MC
J. Rodighero
Zero erros, por enquanto.
Voto: 10 MC
O da parada certa
Não compreendeu a cultura da empresa.
Voto: 50 MC
O Rastelo Quebrado
55% de confiabilidade e nenhum processo.
Voto: 100 MC
Ninguém
O Max ganhou Vancouver, e o C.H.E.N.™ está de bom humor.
Voto: grátis
Parcial: apuração em andamento. O helicóptero não espera o resultado.
Quem largou a pasta? As pistas
Cheirava a hortelã.
As fichas estavam em ordem alfabética, com etiqueta colorida.
Na margem, a lápis: “por que só eu recebo as peças piores?”
Uma gota de água benta na capa.
Um bilhete dobrado: “Pois.”
Uma das fichas estava marcada “concordo”.
A redação lembra que pasta vazia se carrega em qualquer corredor.
A redação nega ter recebido o e-mail, ter lido o e-mail e ter respondido o e-mail, exceto pela resposta automática, que é da máquina. Ao Sr. Rodighero, a redação deseja boa estreia e lembra: são quatro rodas. Alguém lá dentro conta.
Na capa · Edição Nº 5
O filho preferido
A redação voltou das férias e achou seis semanas de jornal na porta.
Leia a edição →
O Plano Infalível nº 3
Provas se perdem
A estreia dos pombos espiões. O Agente 12 já comia em tigela de porcelana.
Leia a fofoca anterior →



