Paddock · 2021 · ██ ██ Disse-me-disse do Paddock Preço: 14 sacos de milho e 1 MC

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Serviço encomendado

O helicóptero voltou. Está estacionado. Por enquanto.

A diretora do departamento disciplinar da Cruzeiro Real pediu à redação que investigasse três erros nos boxes de Munique. A redação estava de férias. Entrega agora, com seis semanas de atraso e a nota fiscal.

por El Linhaça. Fotos: Agente 12, que não tirou férias

Em visão vermelha de máquina, do alto de uma claraboia: num hangar vazio, um pequeno helicóptero estacionado, com uma espiga de milho amarrada na ponta da cauda e a mangueira de combustível ligada. A porta da cabine está aberta e o assento, vazio. No chão, ao lado da porta, um saco de cimento, um rolo de fita adesiva e um par de botas de borracha, enfileirados. Os rótulos dizem: ALVO: HELICÓPTERO C.H.E.N., STATUS: ESTACIONADO, TANQUE: CHEIO; ASSENTOS VAGOS: 1, BAGAGEM: CONFERIDA, PASSAGEIRO: tarjado. 2021 09 ██ 06:40
O hangar. Status: estacionado. Tanque: cheio. Assento: vago. Por enquanto.

No dia do GP de Munique, a Família pediu ajuda a esta redação. Por escrito, por telefone e aos gritos. Queria saber por que três funcionários diferentes erraram nos boxes na mesma corrida.

A redação estava de férias. Voltou, abriu a caixa de entrada, leu o pedido e fez o serviço. Está tudo abaixo: o pedido, o arquivo, o hangar, a apuração, a resposta sobre o Neydson Bölkhe e a nota.

A redação não acusa ninguém. Põe lado a lado. E cobra.

1. O pedido

No dia do GP de Munique, chegou um e-mail. Remetente: Chen Heng, diretora do C.H.E.N.™, o Centro de Harmonização e Encaminhamento de Negligentes da Cruzeiro Real. Destinatário: “Redação Investigativa de O Linhaça”. O nome está errado. O endereço, certo. Prioridade: máxima.

“Por determinação expressa do DON Fernando Augusto, solicitamos a abertura imediata de uma investigação sobre a sequência de falhas operacionais sofridas pela Cruzeiro Real Automobilismo durante o GP de Munique.”

A lista vinha anexa: Napoleão de Castilhos, nos pneus do Max, 3,829 segundos; Narciso Kist, no macaco traseiro do André, 1,987 segundo; Alexandre De Oliveira, nos pneus do André, 2,925 segundos. E quatro perguntas: se há vínculo entre os três; se houve contato com equipes rivais; se foi falha de treinamento, de supervisão ou de equipamento; e “a inexplicável capacidade da equipe de cometer erros com funcionários diferentes em sequência”.

E um P.S.: “O departamento jurídico deseja evitar a expressão organização criminosa no título da reportagem antes da conclusão das diligências.” A redação cumpre contrato. Confira o título.

O telefone também tocou. Segundo quem estava na sala, o DON gritava ao fundo: “CHEN! CHAMA O LINHAÇA, PORRA! TRÊS ERROS DE TRÊS FUNCIONÁRIOS DIFERENTES! ISSO NÃO É PIT CREW! É UMA ORGANIZAÇÃO CLANDESTINA DENTRO DA NOSSA ORGANIZAÇÃO CLANDESTINA!”

Quem atendeu foi a secretária eletrônica. O e-mail recebeu a resposta automática:

Resposta automática

Obrigado pela mensagem. A redação está de férias, sem data para voltar. Para assuntos urgentes, procure o pombo. Para assuntos muito urgentes, procure o pombo e leve milho. Este endereço não guarda segredos: vende.

2. A pasta vazia

Em visão vermelha de máquina, de fora de uma janela, na altura do parapeito: um escritório arrumado de manhã cedo. Na mesa, uma pasta de papelão aberta e vazia, um carimbo, canetas em fila por cor, um calendário e uma xícara fumegando. Ao fundo, um arquivo de aço com uma gaveta puxada, e um paletó preto no cabide. Os rótulos dizem: ALVO: PASTA C.H.E.N., CONTEÚDO: 0 FOLHAS; GAVETA: ABERTA, CONTEÚDO: 0. 2021 08 ██ 07:12
De manhã cedo. Uma pasta na mesa. Vazia. A gaveta, também.

Dos pombos da redação, só um não foi à praia: o Agente 12, aquele que comia milho numa tigela de porcelana que a redação nunca comprou. Quem aceita envelope de qualquer um não tira férias. Ficou no parapeito e viu tudo.

Viu, por exemplo, a manhã em que a Chen voltou ao escritório “carregando uma pasta vazia”, segundo o próprio arquivo da Família. Na véspera, a pasta tinha conteúdo. A redação conseguiu o conteúdo, que é o que vem a seguir. Como, não diz. O Agente 12 recebeu uma tigela nova.

3. O arquivo

Em visão vermelha de máquina, de cima de uma mesa: nove fichas de funcionário em três fileiras, cada uma com uma foto de rosto coberta por uma tarja preta. Quatro fichas têm um carimbo vermelho redondo com um X; as outras cinco estão limpas. Ao lado, um clipe, um carimbo deitado e uma xícara. Os rótulos dizem: CARIMBADOS: 4, DESTINO: ÍNDICO; SEM CARIMBO: 5, STATUS: OBSERVAÇÃO. 2021 08 ██ 07:15
As fichas, lado a lado. Quatro com carimbo. Cinco esperando.

A redação não acusa ninguém. Põe lado a lado.

O Lars. Errou os pneus do Max em Yokohama e levou advertência. Errou os pneus do Max em Sydney, por 2,244 segundos, e o Max perdeu a corrida por menos que isso. Tinha 17 de habilidade em pneus e entrou descansado nas duas vezes. No tribunal da Família, segundo quem estava na sala, havia na mesa duas fotos, uma caneta BIC e um aquário. O Lars tentou se defender: “Mas senhor, eu tenho dezessete em pneus!” O DON: “E AGORA VAI TER DEZESSETE ATMOSFERAS DE PRESSÃO PRA ESTUDAR, SEU FILHO DA PUTA!”

A ordem de transferência lista a bagagem: “Uma caneta BIC, um crachá cancelado e sapatos de concreto personalizados”. O lema da operação, do próprio documento: “BIC CRISTAL™ — ESCREVE ATÉ O FIM. SABIC — AFUNDA ANTES.”

A redação não diz que o Lars foi jogado no mar realocado para um cargo com vista para o oceano. Diz que o documento diz.

4. O hangar

Na manhã seguinte ao tribunal, segundo o mesmo documento, “um helicóptero desaparece sobre o horizonte”. Voltou. O Agente 12 o fotografou de novo no hangar (ver a foto do alto da página), estacionado, como em Dubai, quando o registro dizia que ele “permaneceu estacionado, por se tratar da primeira ocorrência”. Tem uma espiga no rabo, o tanque cheio e o assento vazio. Ao lado, um rolo de fita que a redação prefere chamar de mordaça kit de depilação e um saco de cimento calçado ortopédico de alta estabilidade.

Agora há cinco funcionários com um erro e um com zero. O helicóptero tem um assento.

5. A apuração

Ao C.H.E.N.™, as respostas, na ordem das perguntas.

1. Há vínculo entre os três de Munique? Há. Napoleão, Narciso. Antes deles, Neydson. Antes de todos, Natan, o Jaguara. Dos nove nomes do arquivo, quatro começam com N: dois já foram ao Índico, dois estão na fila. O Alexandre não começa com N, mas tem um no meio, escondido, o que é pior. A redação não acredita em coincidência e recomenda ao departamento pessoal da Família rever quem contrata as letras.

2. Houve contato com equipes rivais? A redação encontrou, nas fotos do Agente 12 em Munique, um homem de macacão sem equipe perto dos macacos hidráulicos. Ninguém o contratou. Ou alguém contratou. A redação conhece o tipo: é o Técnico, que a Toró & Urucubaca manda “quando a macumba falha”, e cujo lema é “Nem toda porca solta é culpa do mecânico”. A redação não afirma que foi ele. Afirma que ele estava lá. (Este item foi pago pelo patrocinador para sair em letra pequena.)

3. Foi falha de treinamento? O relatório do Sr. Süle, que a redação leu de cabeça para baixo, diz que a parada mais rápida de Munique levou 6,210 segundos, 3,375 a mais que o recorde da temporada, e que “nenhum dos três incidentes foi particularmente perigoso”. O DON perguntou se havia alguma coisa boa no relatório. O Sr. Süle: “Uma das quatro paradas ocorreu sem erros.” O DON: “UMA?!”

“A fucking milagre! One correct pit stop, we have achieved; an investigation into this competence, urgently we must begin!” — Ken Obi, segundo a ata

A reserva, Margarida Facucho, sugeriu identificar o responsável pela parada certa: “É claramente alguém que ainda não compreendeu a cultura da empresa.” A redação concorda. Pela lógica da casa, o suspeito é quem acertou. O nome dele está à venda.

4. Por que funcionários diferentes erram em sequência? É a política da casa, e está na ata: “uma advertência para primeira ocorrência e encaminhamento disciplinar para reincidência confirmada”. Cada um tem direito ao seu primeiro erro. Não é sabotagem. É rodízio.

Conclusão: não há prova de sabotagem. Há um padrão. O primeiro erro é de graça. O segundo é de helicóptero.

6. E o Neydson?

Esta coluna perguntou, antes das férias, o que tinha acontecido com o Neydson Bölkhe depois da sentença. O DON respondeu, sem querer, em três reuniões diferentes, segundo quem estava em cada uma:

  • “MOSTRA PRO FANTASMA DO NEYDSON QUEM MANDA NESSA PORRA!”;
  • “CHEN, CONFERE SE O FANTASMA DO NEYDSON NÃO TÁ NA ESCALA!”;
  • “O NEYDSON VAI ASSISTIR À REPRISE NO FUNDO DO OCEANO!”.

Na sala de reuniões, há agora um retrato dele com a inscrição “FUNCIONÁRIO DO MÊS — RECURSOS SUBMARINOS”.

A redação, que passou as férias mergulhando no Índico, não confirma nem desmente. Trouxe um souvenir.

E informa só mais uma coisa. Lá embaixo, alguém perguntou se tinham conferido as porcas.

Numa mesa cinza de laboratório, uma chave de roda cromada com as iniciais N.B. gravadas no cabo, ao lado de uma régua forense quadriculada. A chave está seca e limpa. Dela pende, por um barbante, uma etiqueta de preço de lojinha com o desenho de uma palmeira. Uma teia de aranha liga a chave à régua. Ao lado, um saco plástico de provas vazio e uma luva azul. 2021 09 ██ 10:05
Prova nº 1 — Encontrada a 40 metros, na lojinha do hotel no Índico. Está seca, tem etiqueta de preço e uma teia de aranha. Lá embaixo nada se mexe. Nem a água.

7. A nota fiscal

8. Enquete: quem é o próximo?

Cinco funcionários com um erro. Um com zero. Um helicóptero. A redação quer ouvir o leitor. Votar em quem tem zero custa mais caro, porque dá mais trabalho.

Quem é o próximo? Votação aberta

Edervan Dualib

Dubai. O primeiro da fila, por antiguidade.

Voto: 1 MC

Napoleão de Castilhos

A parada mais rápida do grid, com erro. Um talento.

Voto: 1 MC

Narciso Kist

O macaco traseiro. E o N.

Voto: 1 MC

Alexandre De Oliveira

O N escondido.

Voto: 1 MC

J. Rodighero

Zero erros, por enquanto.

Voto: 10 MC

O da parada certa

Não compreendeu a cultura da empresa.

Voto: 50 MC

O Rastelo Quebrado

55% de confiabilidade e nenhum processo.

Voto: 100 MC

Ninguém

O Max ganhou Vancouver, e o C.H.E.N.™ está de bom humor.

Voto: grátis

Parcial: apuração em andamento. O helicóptero não espera o resultado.

Quem largou a pasta? As pistas

Cheirava a hortelã.

As fichas estavam em ordem alfabética, com etiqueta colorida.

Na margem, a lápis: “por que só eu recebo as peças piores?”

Uma gota de água benta na capa.

Um bilhete dobrado: “Pois.”

Uma das fichas estava marcada “concordo”.

A redação lembra que pasta vazia se carrega em qualquer corredor.

A redação nega ter recebido o e-mail, ter lido o e-mail e ter respondido o e-mail, exceto pela resposta automática, que é da máquina. Ao Sr. Rodighero, a redação deseja boa estreia e lembra: são quatro rodas. Alguém lá dentro conta.

A porta entreaberta de uma redação, empurrada por pilhas de jornais; na frente, uma mala, um chapéu de palha e chinelos na areia, e um pombo de óculos escuros em cima da mala. Na capa · Edição Nº 5 O filho preferido A redação voltou das férias e achou seis semanas de jornal na porta. Leia a edição → Um pombo cinza de capacete de obra amarelo com uma câmera, peitoral com fenda de moeda e crachá com tarja, visto num retrovisor em visão vermelha de máquina. O Plano Infalível nº 3 Provas se perdem A estreia dos pombos espiões. O Agente 12 já comia em tigela de porcelana. Leia a fofoca anterior →