Paddock · 2020 · ██ ██ Disse-me-disse do Paddock Preço: a combinar

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Concorrência

Provas se perdem

O piloto mais certinho do grid tentou subornar a GMA. A GMA recusou. A redação tem as fotos, e é mais flexível.

por El Linhaça. Fotos: Agente 07

A GMA, que fiscaliza o campeonato, encontrou uma peça fora das regras no carro de Go Kanjiro, da Ruiz Motorsport. O piloto perdeu quatro posições e terminou em 11º. É o que diz o comunicado. O comunicado não diz o resto.

O resto é que a peça foi comprada de madrugada, num estacionamento, das mãos de alguém de capuz. Que, apanhado, o piloto ofereceu um envelope ao fiscal. E que o fiscal devolveu.

A redação fotografou tudo. A GMA tem a peça. A redação tem o resto.

1. A fachada

Em visão vermelha de máquina, com miras e rótulos: de madrugada, num box vazio com o número 07, iluminado por uma lâmpada só, um piloto ajoelhado lava à mão um carro de corrida. Na parede, uma folha quadriculada cheia de tiques. No chão, ferramentas em fila por tamanho e um balde. Os rótulos dizem: KANJIRO · LAVA O CARRO, HORA: 03:40 · MOTIVO: ?; BALDE: ESPUMA DEMAIS, DIGITAIS: 0. 2020 ██ ██ 03:40
Três e quarenta da manhã. O Kanjiro lava o próprio carro, por capricho. Na parede, a lista dos mecânicos a quem ele já agradeceu. No balde, espuma demais. No carro, digitais nenhuma.

Go Kanjiro é, segundo quem conhece o paddock, o piloto mais certinho do grid. Lava o próprio carro. Guarda as ferramentas em fila, por tamanho. Agradece a cada mecânico pelo nome, e tem uma folha na parede para não esquecer nenhum. Nunca foi multado nem por excesso de gentileza.

Um homem assim lava o carro às três e quarenta da manhã porque é caprichoso. A redação também acha. A redação só registra que o capricho veio na mesma semana da peça, e que o balde tinha espuma suficiente para três carros.

2. A compra

Em visão vermelha de máquina, de cima de um poste, num estacionamento molhado atrás do paddock, de madrugada: o piloto, de capuz sobre o macacão, segura um envelope pardo diante de um vulto de capuz e sobretudo, de rosto escondido na sombra, que lhe passa uma peça de metal enrolada num pano. Atrás, uma van branca de portas abertas, cheia de peças. Os rótulos dizem: VENDEDOR: tarjado, ROSTO: NÃO ENCONTRADO; PEÇA: ILEGAL, NOTA FISCAL: NÃO. 2020 ██ ██ 02:15
Estacionamento, 02h15. Um envelope vai, uma peça vem. O vendedor não tem rosto. Tem van, tem estoque e tem horário de atendimento.

A peça não caiu do céu. Caiu, segundo quem estava no estacionamento, do fundo de uma van branca, às duas e quinze da manhã, nas mãos de alguém de capuz que a redação não identificou. O capuz não é um detalhe: ninguém usa capuz para vender peça legal.

O Sr. Kanjiro foi de capuz também. Por cima do macacão. O homem mais certinho do grid não lembrou de tirar o macacão para ir a um encontro secreto. É o tipo de capricho que a redação admira.

3. O envelope

Em visão vermelha de máquina, do alto de uma viga no fundo de um box: o piloto, olhando para cima por cima do ombro, estende um envelope pardo com notas aparecendo, e atrás dele um fiscal de uniforme cinza, com crachá e prancheta, recusa com a mão espalmada e vira o rosto. Os rótulos dizem: ENVELOPE, CONTEÚDO: POUCO; SUBORNO: RECUSADO, MOTIVO: VALOR BAIXO; KANJIRO, NERVOSISMO: 94%. 2020 ██ ██ 16:48
Devolvido. A GMA recusou o envelope. Por princípio, diz o fiscal. Pelo valor, diz a redação, que viu o envelope de cima.

Apanhado, o Sr. Kanjiro fez o que um homem educado faz: ofereceu um presente. Um fiscal da GMA, que pediu para não ser identificado (fiscal da GMA não costuma ser identificado nem pela própria GMA), conta que recusou na hora. “Eu nem abri”, disse. “Mas era fino.”

A redação não acusa a GMA de nada. Registra apenas que a GMA aprova peças que brilham e recusa envelopes que não brilham. O critério, ao que parece, é o volume.

Procurado, o piloto falou à redação. A entrevista vai publicada abaixo. As tarjas protegem a fonte. O que está debaixo delas não é a resposta: é o preço da resposta.

El Linhaça: O senhor comprou a peça?

Kanjiro: “I bought 1 saco de milho that part.”

El Linhaça: E o envelope?

Kanjiro: “The envelope was 2 sacos for the officials.”

El Linhaça: Quem vendeu?

Kanjiro: “I don’t know his name. I didn’t o nome custa o dobro.”

(o piloto agradeceu a redação pelo nome, o que foi cortado por não ser notícia)

4. Provas se perdem

Em visão vermelha de máquina, numa mesa redonda sob um holofote: sobre uma almofada de veludo, um saco de evidência lacrado com uma peça de metal, dois parafusos e uma etiqueta amarrada. Ao lado, um envelope pardo com notas aparecendo e um leque de fotografias de um carro de corrida. Em volta, um martelo de leilão, moedas, uma lupa e um único grão de milho. Os rótulos dizem: LOTE 01, PROVAS: 3, LANCE: 1 ENVELOPE; LEILÃO: ABERTO, LANCES: 4 · PAGOS: 0; MILHO DETECTADO: SIM. 2020 ██ ██ 23:59
Lote 01. As fotos, o envelope e a peça. O grão de milho não está à venda: é do fotógrafo.

Situação delicada a do Sr. Kanjiro. Quatro posições abaixo do que merecia, segundo ele. A equipe olhando torto. A GMA de prancheta na mão. E agora, a redação, com as fotos.

A redação é sensível a isso. Não é a GMA: não tem regulamento, só tabela de preços. E sabe, por experiência, que provas se perdem. Caem atrás do armário. Vão para o lixo junto com a pizza. Somem num envelope. Tudo depende do tamanho do envelope.

Como esta redação é ética, a mesma oferta foi feita a todos os interessados, ao mesmo tempo, sem que nenhum soubesse da oferta do outro. Até agora.

Lote 01 · As provas do caso Kanjiro Leilão aberto

Go Kanjiro

As provas se perdem. Todas. As fotos, os negativos e o pombo. O envelope que a GMA devolveu serve de entrada.

Preço: o envelope, e mais um envelope mais gordo

Ruiz Motorsport

Recebe as provas para descobrir se o piloto agiu sozinho, e o endereço da van, para descobrir o que mais tem nela.

Preço: o dobro do que o piloto oferecer

O vendedor de capuz

Quer saber se aparece na foto. Aparece, de capuz. Por um valor, a redação garante que continua de capuz. Por outro valor, publica sem.

Preço: uma peça da van, à escolha

GMA

Recebe as provas de graça, por espírito público.

Preço: nenhum. A GMA não aceita envelope, o que dificulta a conversa

Propostas enviadas: 4. Pagas: 0. Arrematante: ninguém, ainda.

El Linhaça Ads™: este espaço paga o milho do fotógrafo.

5. O pombal

Em visão vermelha de máquina, no retrovisor cromado de um carro: o reflexo de um pombo cinza de verdade, de cabeça inclinada, com capacete de obra amarelo com uma câmera, um peitoral com uma fenda de moeda de latão, um cinto de ferramentas com alicate, fita isolante e um saquinho de milho, uma bolsinha com notas de dinheiro, um crachá com tarja preta e uma antena. Os rótulos dizem: ALVO: EU MESMO, AMEAÇA: MÁXIMA, AUTOESTIMA: 100%; INSIRA UMA MOEDA, SORTE: R$ 2,00.
Autorretrato. O Agente 07 se viu no retrovisor e travou a mira em si mesmo. Ameaça máxima. Autoestima também.
Num pombal secreto no telhado, à noite, sob uma lâmpada: um homem de sobretudo e boné, de costas, dá milho na palma da mão a um pombo de capacete e tira da bolsinha dele uma foto enrolada. Na bancada, capacetes minúsculos em pinos, cintos de ferramentas, bolsinhas, lentes, lupa, alicate, ferro de solda, maço de notas, um porta-moedas, um saco de milho e um pote de linhaça. Nos ninhos, pombos de capacete. Na parede, um quadro de fotos vermelhas ligadas por barbante.
Entrega. O pagamento é na palma da mão. A redação não revela o endereço do pombal. Revela que fica num lugar alto.

A redação não costuma revelar os seus métodos. Este ela revela, porque já não adianta esconder: pombo gosta de milho, e onde há corrida há milho no chão. Ninguém estranha um pombo. Ninguém olha para cima. Nem num estacionamento às duas da manhã.

Os pombos são da casa. Foram criados, treinados e equipados aqui, um por um, na bancada: capacete com câmera, cinto de eletricista, bolsinha para o dinheiro e crachá, com tarja. No peito, uma fenda de moeda, como a do boneco adivinho dos parques de diversão. Quem põe a moeda recebe a sorte. A sorte é uma fofoca. As fontes desta redação nunca viram o repórter. Viram um pombo.

O método tem precedente. Em 1907, um farmacêutico alemão prendia câmeras no peito dos pombos. Nos anos 70, um serviço secreto fez o mesmo. A redação apenas acrescentou o capacete, por segurança do trabalho.

Em visão vermelha de máquina, na altura de um pombo, sobre um telhado de zinco ao amanhecer: outro pombo de capacete e crachá come milho de uma tigela de porcelana azul e branca. Ao lado, uma nota de dinheiro presa debaixo de uma pedra. Ao fundo, um milharal até o horizonte, tambores e um cata-vento em forma de espiga. Os rótulos dizem: AGENTE 12, SUSPEITA: AGENTE DUPLO; MILHO DE QUEM?, PORCELANA: CARA DEMAIS. 2020 ██ ██ 05:51
No telhado. O Agente 12 come milho numa tigela de porcelana que esta redação nunca comprou. Ao lado, uma nota, presa com uma pedra. Foto do Agente 07, que viu tudo e não comeu nada.

Até entre os pombos há quem aceite envelope. A redação já sabe quem é: a tigela é de porcelana. Quem, no paddock, serve milho em porcelana? A redação tem um palpite. O Agente 12 está, desde já, à venda também.

6. Quem vigia quem

Quadro de câmera de segurança, em preto e branco e infravermelho: na calha de um telhado, um pombo de capacete com câmera, peitoral e cinto de ferramentas encara a câmera de cabeça inclinada, com os olhos brilhando. A seus pés, grãos de milho. Ao fundo, um milharal e tambores. No canto, CAM 03 e o nome do lugar censurado, REC e a data com o dia e o mês censurados, 03:12.
CAM 03. A câmera de segurança de alguém flagrou o fotógrafo da redação. A gravação está com a redação. Esse alguém sabe quem é.

Alguém tem câmera de segurança. A redação tem a gravação da câmera de segurança desse alguém. O nome do lugar vai com tarja. A tarja também está à venda.

O Agente 07 agora mora no telhado do box 07. É coincidência de número. A redação não acredita em coincidência.

Quem vendeu a peça? As pistas

Usa capuz em dia de calor.

Tem uma van branca com as portas sempre abertas.

Aceita envelope. Ao contrário da GMA.

Sabe o nome do Kanjiro. Todos sabem: ele agradece a todos.

Estacionou longe das câmeras. Quase.

Não estava na foto. Estava: de capuz.

A redação lembra que van branca se aluga em qualquer esquina.

A redação nega ter um pombal, ter pombos, conhecer pombos e saber o que é um pombo. Nega também ter as provas, exceto para quem fizer o lance. Ao Sr. Kanjiro, a redação lembra que o envelope que a GMA devolveu ainda está com o senhor. A redação aceita.

Em visão vermelha de máquina, um helicóptero estacionado num hangar, de porta aberta e assento vazio; no chão, um saco de cimento, fita adesiva e botas de borracha. O Plano Infalível nº 4 O helicóptero voltou O Agente 12 não tirou férias. A Família encomendou uma apuração, e a redação entregou. Leia a fofoca seguinte → Num estacionamento, um homem de sobretudo bege, chapéu e óculos escuros abre o casaco cheio de produtos pendurados; no chão, uma mala aberta; atrás, uma van branca abarrotada. A van voltou · Edição extra Mercado negro no paddock O vendedor trocou o capuz pelo chapéu e abriu o casaco. Dentro, um campeonato inteiro. Leia a edição extra → Um carro de corrida da Cruzeiro Real, erguido em cavaletes, cospe fogo pelo escapamento enquanto alguém, contra a luz, o abençoa em êxtase, e um piloto-fantasma verde sobe do motor. O Plano Infalível nº 2 Um bota o capeta, o outro tira Duas Testemunhas de Jeová, duas da manhã, duas religiões e um carro só. Leia a fofoca anterior →