Edição extra Yokohama · 2021 · ██ ██ Preço: um saco de milho (é extra, não é de graça)

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Edição extra · Escândalo

Mercado negro no paddock

Ele abriu o casaco. Dentro, um campeonato inteiro. Quem comprou, a redação sabe. Quanto custa saber, também.

por El Linhaça, de trás de um carro estacionado

Psst. Ô, piloto. Foi assim que começou, segundo quem estava no estacionamento atrás do paddock de Yokohama, às cinco e quarenta da tarde. Um homem de sobretudo bege, chapéu e óculos escuros, num dia de 28 graus, chamou alguém de canto. O alguém foi. O homem olhou para um lado, olhou para o outro, olhou para o primeiro de novo e abriu o casaco.

Dentro do casaco havia um campeonato inteiro.

A redação conhece a van atrás dele. É a mesma van branca, de portas sempre abertas, de onde saiu a peça do caso Kanjiro (ver Provas se perdem). Naquela madrugada, o vendedor usava capuz. Agora usa chapéu. A redação não sabe se ele mudou de estilo ou de ramo. Sabe que mudou de estoque.

1. O casaco

Foto de paparazzi, de trás de um carro estacionado, num estacionamento atrás do paddock, no fim da tarde: um homem de sobretudo bege, chapéu escuro e o rosto pixelado abre o casaco como uma cortina. No forro, pendurados em ganchos, uma buzina de borracha vermelha, ampolinhas de líquido marrom, uma bandeirinha azul e uma quadriculada, carimbos, bananas num saquinho e uma porca grande. No chão, uma mala aberta com latas de spray pintadas com uma nuvem de chuva, um safety car de brinquedo, um pombo de pelúcia, frasquinhos dourados, um macacão dobrado e um motor com uma faixa de corrida. Atrás, uma van branca de portas abertas, cheia de caixas até o teto. Na borda da direita, só o braço de alguém estendendo um leque de notas. 2021 ██ ██ 17:40
Abre-se o casaco, fecha-se o campeonato. À direita, o braço de alguém, com dinheiro na mão. O resto de alguém, a redação guardou.

O casaco é o mostruário. O forro, de cima a baixo, é uma parede de ganchos, e em cada gancho há uma forma de ganhar uma corrida sem precisar ser mais rápido. No chão, uma mala aberta exibe o que não coube no forro. E atrás, a van, iluminada por dentro como vitrine de shopping, com caixas até o teto. O que está no casaco é a amostra grátis. O que está na van, a redação ainda não sabe. Sabe que tem.

O vendedor fala baixo, de canto de boca, e não fica parado. A cada carro que passa, fecha o casaco. A cada carro que vai embora, abre de novo. Segundo o guardador, é assim desde a temporada passada, sempre na véspera de corrida, sempre na mesma vaga, sempre longe da câmera. Quase.

2. A tabela

Quando um carro da GMA passou devagar, o vendedor fechou o casaco depressa demais e deixou cair uma folha. A redação a recolheu do asfalto, alisou e transcreve abaixo, com a ortografia corrigida e os preços intactos. As marcas são dele: o que está no casaco, o que está na mala e o que, segundo ele, “está lá atrás”.

Tabela (não perder!!) preços em MilhoCoin™

  1. ☑ balcãoNariz de Palhaço Artigo de circo e festa. Nota fiscal na hora!!0,50 MC
  2. ☑ casacoBuzina de Peido de Bolso Liga no rádio de equipe do adversário. Toca na freada da curva 1. Desconcentra até piloto que encontrou Deus.2 MC
  3. ☑ casacoPeido Alemão®, ampola original de Hamburgo* Uma gota no carburador e a fumaça do escapamento passa a feder. Quem vem no vácuo desiste do vácuo. *fabricado em Osasco1 MC
    a caixa c/ 6
  4. ☑ casacoBandeira Azul de Bolso Cabo retrátil. Mostre ao carro da frente, e ele abre passagem.4 MC
  5. ☑ casacoBandeira Quadriculada de Bolso A corrida acaba quando você estiver na frente. A mais vendida!!10 MC
    o preço de 1 vitória
  6. ☑ casacoCarimbo “APROVADO — GMA” A vistoria que cabe na palma da mão. Tinta verde.100 MC
  7. ☑ casacoCasca de Banana de Competição Homologada pela federação da Bulgária. Vem com a banana dentro, para manter fresca.0,30 MC
  8. ☑ casacoÓculos de Raio-X Veja o acerto do rival através da carenagem.0,20 MC
  9. ✗ esgotadoPorca que Se Solta Sozinha, modelo Vancouver A do casaco é de mostruário. Não vendi nenhuma no Canadá.—
  10. ☑ malaChuva em Lata Molha só a pista do adversário. Força o pit stop. A previsão do tempo agora é você.25 MC
    a lata
  11. ☑ malaSafety Car de Controle Remoto Entra na pista na volta que convier. Pilhas não inclusas.250 MC
  12. ☑ malaPombo Espião Genérico De pelúcia, com câmera de brinquedo. Não voa, mas também não come milho.3 MC
  13. ☑ malaIchor Genérico O mesmo frasco do original. O original está nos Classificados.5 MC
  14. ☑ malaUniforme de Mecânico de Qualquer Equipe Tamanho único, crachá em branco. Entra em qualquer box.12 MC
  15. ☑ malaLiquidificador Turbo V8 Tira o copo e vira motor. Para equipes de orçamento curto.8 MC
    só a faixa: 7,50
  16. ☑ malaSelo de Linhaça Um grão. Para assinar fofoca que ninguém escreveu.0,10 MC
    o saquinho
  17. ☐ na vanAdesivo de Retrovisor “Os objetos no espelho estão mais longe do que parecem.” Para a autoestima de quem é perseguido.0,50 MC
  18. ☐ na vanPneu de Chuva Desidratado Basta adicionar água.30 MC
  19. ☐ na vanFumaça de Largada Enlatada Pareça ter largado bem.6 MC
  20. ☐ na vanPódio de Montar Só o degrau do 1º lugar, dobrável. Para foto.90 MC
  21. ☐ na vanTorcida em Fita K7 Lado A: aplausos para você. Lado B: vaias para o rival.2,50 MC
  22. ☐ na vanMapa da Pista com Atalho Marcado a caneta. O atalho passa pelo estacionamento.1 MC
  23. ☐ na vanCocô de Alien NOVIDADE!! Importado direto da fonte. Brilha no escuro. Muda tudo. Fonte inclusa (na jaula).1 Milhão
    a nota

Só MilhoCoin™. Envelope de MilhoCoin™ também.
Não aceito: dólar, cartão, cheque, GMA.
NA VAN TEM MAIS. PERGUNTE.

A redação destaca três itens.

O Peido Alemão®, o clássico das lojas de pegadinha, que o vendedor reposicionou para o automobilismo. Uma gota no carburador, e quem vem no vácuo desiste do vácuo. A caixa do mostruário estava pela metade. Perguntado, segundo o guardador, sobre quem leva tanto, o vendedor teria dito que vende pouco para uma certa equipe, porque “lá não faz diferença nenhuma: o carro já sai de fábrica assim”. A redação não sabe de que equipe ele falava. A redação desconfia.

O carimbo, de tinta verde. Um fiscal da GMA que pediu para não ser identificado (de novo) garante que o carimbo verdadeiro não é verde. A redação perguntou se a tinta verde brilha. O fiscal pediu para não ser identificado de novo.

A porca, modelo Vancouver, esgotada. O vendedor jura que não vendeu nenhuma no Canadá. A redação não perguntou. Ele jurou assim mesmo.

3. A mala

Foto de flash, tirada de cima, de uma mala rígida aberta no asfalto molhado: em recortes de espuma, uma buzina de borracha vermelha, ampolinhas de líquido marrom, duas bandeirinhas dobradas, uma azul e uma quadriculada, um carimbo de madeira, bananas num saquinho, óculos de raio-X com lentes em espiral, uma porca grande, duas latas de spray com uma nuvem de chuva pintada, um safety car de brinquedo com o controle remoto, um pombo de pelúcia com uma câmera na cabeça, três frasquinhos de líquido dourado, um macacão dobrado com crachá em branco, um liquidificador com uma faixa de corrida pintada e um saquinho de papel derramando sementes de linhaça. Ao lado das bandeirinhas, dois recortes vazios, com o mesmo formato. 2021 ██ ██ 23:10
O mostruário. Cada coisa no seu buraquinho de espuma, como joia. A foto foi feita de cima, à noite, quando o vendedor foi à van buscar troco.

A mala volta à van todo fim de noite, e o vendedor demora para fechá-la, porque arruma tudo de novo, item por item, como joalheiro. A redação aproveitou um desses minutos. Contou os produtos, dois buraquinhos vazios e um saquinho de sementes que não está à venda por nenhum preço que a redação considere justo.

Os dois buraquinhos vazios são, pelo formato, de duas bandeiras quadriculadas. Alguém ganhou duas corridas hoje. Ou vai ganhar.

4. A van por dentro

Foto de flash, tirada da porta de trás de uma van branca: pelas portas abertas, em vez da caçamba, um armazém imenso, com corredores de prateleiras até o teto, cheias de caixas, pneus, carenagens, escapamentos e maços de bandeiras quadriculadas, e lâmpadas que somem ao longe. No meio do corredor, sobre um palete, uma jaula de ferro com um alienígena cinza de cabeça grande e olhos pretos enormes, segurando as grades. Ao lado, numa mesinha de veludo vinho, potes de vidro com rolha, cada um com um cocô de alienígena que brilha verde e violeta. 2021 ██ ██ 17:52
Maior por dentro do que por fora. A van tem quatro metros. O corredor, a redação não conseguiu medir: a trena acabou antes.

A van é branca, comum, de quatro metros, das que se alugam em qualquer esquina. Por fora. Por dentro, é um armazém. A redação olhou pela porta de trás, enquanto o vendedor atendia, e não viu o fundo. Viu prateleiras até o teto, corredores que dobram, pneus de todas as equipes, maços de bandeiras quadriculadas e uma lâmpada atrás da outra, até onde a vista alcança. A redação não entrou. Teve medo de não achar a saída.

E viu, no meio do corredor principal, a novidade da estação: cocô de alien. O produto não estava no casaco nem na mala. Fica lá dentro, em potes de vidro com rolha, numa mesinha de veludo, como joia. Brilha no escuro, verde e violeta. Na tabela, vem por último, em letra maior: “NOVIDADE!! Muda tudo.” O preço é uma nota de UM MILHÃO. O fornecedor fica ao lado, numa jaula, e não parece satisfeito com o contrato.

Se o produto fizer o que a tabela promete, o mercado negro do paddock acaba de mudar de patamar. Até ontem, o combustível mais suspeito do grid era de origem terrestre e, segundo se comenta, bovina. Uma certa equipe que construiu tudo em cima do esterco, e que guarda o segredo a sete chaves, pode ter acordado hoje com o segredo obsoleto. A redação não diz qual. A redação diz que, de onde estava, dava para sentir o cheiro de pânico. Ou era o milho.

O alien, procurado, não quis comentar. Apontou para o vendedor. Depois apontou para o céu. Depois apontou para a câmera da redação, e a redação foi embora.

5. Como a redação descobriu

No estacionamento atrás da arquibancada, no fim da tarde, a mesma van branca virou barraquinha de circo: numa mesa dobrável, uma caixa de narizes de palhaço, bolinhas de malabarismo, chapéus de festa, sapatos de palhaço, balões e galinhas de borracha. O vendedor de sobretudo, chapéu e rosto pixelado entrega um nariz vermelho a um palhaço de roupa de losangos e peruca verde. Na fila, outros dois palhaços, de peruca laranja e azul, um deles contando moedas. O último da fila, mais perto da câmera, está de costas: roupa cinza, peruca marrom sem graça, um broche em forma de grão de linhaça nas costas e uma câmera pequena escondida atrás do corpo. 2021 ██ ██ 17:31
A fachada. Nariz de palhaço, bolinha, balão e galinha de borracha, tudo com nota fiscal. Na fila, quatro palhaços. Um deles não veio comprar nariz.

O vendedor tem fachada. Das cinco às seis da tarde, a van é uma barraquinha de artigos de circo e festa: nariz de palhaço, bolinha de malabarismo, balão, galinha de borracha. Tudo legal, tudo com nota. É o item 1 da tabela, o único que se vende à luz do dia. Quem chega pedindo nariz leva nariz. Quem chega pedindo nariz “do outro” é chamado para trás da van.

Foi assim que a redação chegou perto. Mandou um palhaço. O vendedor desconfia de piloto, de mecânico, de fiscal e de jornalista. De palhaço, não desconfia ninguém: palhaço numa fila de palhaços é só mais um palhaço. O repórter da redação esperou a vez atrás de três colegas de profissão, que eram palhaços de verdade e compraram narizes de verdade, pediu um nariz “do outro” e foi chamado para trás da van. Viu o casaco aberto. Viu a tabela cair. Viu a porta de trás. E foi embora com um nariz, pago, com nota, para não levantar suspeita.

A redação não revela qual dos palhaços era o dela. Revela que o broche era de bom gosto.

6. A repercussão

O guardador do estacionamento, Seu Dirceu, 61 anos, trinta de vaga, conhece o cliente: “O Seu Capote? Mensalista. Paga em dia, em dinheiro, e sempre deixa uma casca de banana de gorjeta. Só pede pra não pôr carro perto da câmera.” Perguntado sobre o que o Seu Capote vende, disse que não sabe e que não comprou nada. A bandeirinha azul no bolso da camisa dele, disse, foi presente.

A GMA, procurada, informou que o estacionamento não é área regulamentada e que, portanto, nada do que acontece nele aconteceu. A redação perguntou se a GMA já tinha estacionado lá. A GMA não respondeu, o que a redação registra como um sim.

Um mecânico de uma equipe que a redação não vai citar, de macacão novo demais e crachá em branco, disse que nunca ouviu falar no assunto. Disse também que trabalha ali há anos. O macacão ainda estava com a etiqueta.

Quem comprou? As pistas

Usava boné de equipe. A cor, contra o sol, não se distingue.

Pagou em MilhoCoin™. Contou as moedas duas vezes. A redação também.

Tinha sotaque. Talvez europeu. Talvez de Goiás.

Levou a buzina e perguntou se ela tocava em português.

Agradeceu ao vendedor pelo nome. Não sabia o nome. Agradeceu assim mesmo.

Saiu andando para o lado dos boxes. Todos os boxes ficam para esse lado.

A redação lembra que boné de equipe se compra em qualquer loja oficial. E na van.

El Linhaça Ads™: anúncio com nota fiscal, ao contrário de certos vendedores.

A redação não comprou nada do vendedor. Pediu desconto, por princípio, e saiu de mãos vazias, exceto pelas fotos, pela tabela, por um nariz de palhaço (com nota) e por uma casca de banana, que não estava à venda e foi recolhida por responsabilidade ambiental. A redação não reconhece o item 16 da tabela e não comenta.

Um pombo cinza de capacete de obra amarelo com uma câmera, peitoral com fenda de moeda e crachá com tarja, visto num retrovisor em visão vermelha de máquina. A van, da primeira vez Provas se perdem O piloto mais certinho do grid comprou uma peça na mesma van, de madrugada, das mãos de alguém de capuz. Leia a fofoca →