O estúdio é o mesmo, alugado pela mesma hora. A mesa, não: a Prof.ª Heloísa, o Seu Valdir e a Dona Lúcia ficaram de fora por questões contratuais (pediram aumento). A redação contratou quem coube no orçamento. Um dos convidados faltou; veio quem atendeu o telefone.
A pergunta da noite circula pela internet e chegou à redação por um leitor: “Os crentes dizem que Deus nos deu livre-arbítrio, mas também dizem que tudo que acontece é de acordo com o plano de Deus. Então como é que essas duas frases podem ser verdade ao mesmo tempo?”
O FLAGRA: Reverendo, as duas frases podem ser verdade ao mesmo tempo?
Rev. Clóvis: Podem, do mesmo jeito que o dízimo é voluntário e obrigatório. Deus desenhou o circuito. O livre-arbítrio é você achar que escolheu a marcha.
O FLAGRA: Papa Kalonji, o reverendo resolveu o paradoxo de graça. O senhor concorda?
Papa Kalonji: Concordo em não trabalhar de graça. Livre-arbítrio é avulso. Plano de Deus é mensalidade. A conciliação das duas sai com nota fiscal.
O FLAGRA: Então a vitória do André é plano. E a boate às seis da manhã?
Rev. Clóvis: O plano explica o pódio. O livre-arbítrio explica o horário de saída. Deus não bate ponto depois do expediente. O Ancião, pelo visto, também não.
O FLAGRA: Papa Kalonji, e a água benta no carburador?
Papa Kalonji: Água benta sem cupom é informalidade, não milagre. A chuva da largada em Vancouver fui eu, e eu lanço no crédito, em três vezes. O carburador dele que parcele.
O FLAGRA: O senhor está dizendo que a chuva de Vancouver foi serviço seu?
Papa Kalonji: Estou dizendo que ninguém mais emitiu recibo. E um compatriota meu, que abandonou na estreia, largou em segundo em Doha e chegou em segundo. Ninguém renasce de graça. a fatura dele: 4 sacos
O FLAGRA: Seu Jairo, o senhor examinou a porca de Vancouver. Plano de Deus ou livre-arbítrio do mecânico?
Seu Jairo: Nem um nem outro, moço. Essa porca não soltou. Essa porca nunca foi apertada. Trinta anos de borracharia, e Deus nunca apertou uma porca pra mim.
O FLAGRA: Um carro sem uma roda ainda é um carro?
Seu Jairo: É carrinho de mão de luxo. Eu já rodei três dias numa Brasília com estepe de bicicleta. O problema não é a roda. É o freguês perceber. Esse aí percebeu porque o carro acendeu.
O FLAGRA: Marcão, o Max fez a volta mais rápida estando em último. Como o senhor lê isso?
Marcão: Defesa do ano depois de levar cinco. No meu tempo, isso dava elogio no jornal e multa no vestiário.
O FLAGRA: E a porca solta?
Marcão: Frango. O rapaz já tinha um frango na conta, saiu do gol, e o Max arrastou a trave no asfalto. E o pior: semanas antes, a reserva tinha falado, de deboche, para não montar pneu. No vestiário, quem avisa amigo é.
O FLAGRA: A Família teria condenado o mecânico ao “Procurando Nemo”: cimento nos pés e Oceano Índico. Isso entra na súmula?
Marcão: Entra como lance que eu não vi. Cimento nos pés eu não pulo. E Procurando Nemo, pra mim, é desenho. Se o regulamento virou filme, me avisem antes do apito.
O FLAGRA: Rogério, e o mecânico, se estiver vivo, quanto vale hoje?
Rogério: Aqui, um contêiner. Na Ozu, que segundo o próprio jornalista do exposé está sem gente, vale ouro. Se o Neydson não está no fundo do mar, está de macacão vermelho e branco. Eu só fiz a conta. A conta fecha.
O FLAGRA: E a Ozu? Na quarta, a pista foi salva para alívio dela e da Família. Na quinta, levou uma reportagem nas costas.
Rogério: Fusão hostil. Primeiro você comemora junto, depois espera a ação do sócio cair. Quem compra na baixa, eu não sei. Sei que o projetista tem amigo lá.
O FLAGRA: Marcão, o Sylvander diz que é melhor que o André. Simples assim. Chegou em segundo em Vancouver, 25 segundos atrás.
Marcão: Segundo a 25 segundos é reserva de banco de concreto. Pedir a braçadeira depois de tomar o gol é discurso de capitão que nunca pegou na bola.
O FLAGRA: Papa Kalonji, a declaração dele cabe no plano de Deus?
Papa Kalonji: Cabe no orçamento, se ele pagar. “Sou melhor, simples assim”, sem maquininha, é torcedor gritando. Com maquininha, é previsão.
O FLAGRA: Reverendo, e quem é o herege?
Rev. Clóvis: Depende do domingo. Se o Ancião vencer, o outro foi herege. Se perder, foi profeta. A Igreja sempre decide depois da bandeirada.
O FLAGRA: Dona Socorro, a reserva avisou ao chefe que, conhecendo o marido, o divórcio pode ficar confuso. Que capítulo é esse?
Dona Socorro: Isso é capítulo 180, querido, e nós estamos no primeiro. “Pode ficar confuso” não é desabafo. É gancho de intervalo. E o marido ainda nem foi dublado.
O FLAGRA: Na ficha dela, agora, está escrito “A vida é maravilhosa”. Por oito semanas.
Dona Socorro: A ficha está mais otimista que a personagem. Novela mexicana não acredita em final feliz. Acredita em prazo. Daqui a oito semanas, quem se divorcia é o carimbo.
Para encerrar, o mediador fez uma pergunta só: se a roda, a boate, os 25 segundos e o carimbo de oito semanas já estavam no plano, sobra algum livre-arbítrio nesta mesa? O reverendo: “Sobra o de fingir que a pergunta era isenta.” Papa Kalonji: “Sobra, sim: no débito ou no crédito.” Seu Jairo: “Sobra a porca. Ninguém sabe onde ela foi parar.” Marcão: “Sobra o goleiro, que não foi convocado e mesmo assim levou o gol.” Dona Socorro: “Sobra o próximo capítulo, que já está escrito e ninguém leu.” O Rogério perguntou quanto a redação pagaria pela resposta. Desta vez, a redação pagou.
O FLAGRA não tira conclusões. Deixa todas à vista, para quem quiser pegar.
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