Véspera de Yokohama · 2021 Edição Nº 3 Preço: três sacos de milho (a inflação continua)

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Você está no arquivo: esta é a edição 3, da véspera de Yokohama, 2021. A edição atual está na capa; as outras, em Edições.

Num estacionamento, um homem de sobretudo bege, chapéu e óculos escuros abre o casaco cheio de produtos pendurados; no chão, uma mala aberta; atrás, uma van branca abarrotada. Plantão · Edição extra Mercado negro no paddock Ele abriu o casaco no estacionamento. Dentro, buzina de peido, peido alemão e bandeira quadriculada de bolso. Quem comprou, a redação não diz. Leia a edição extra →

Exclusivo · Véspera de Yokohama · Com mesa redonda e novela

O herege volta à cena do crime

Vaidade ou vingança?

por El Linhaça, de volta a Yokohama, onde tudo começou

Atualização · 2021 ██ ██, depois da bandeirada

A cena do crime não premiou o criminoso. O André, que venceu aqui em 2019 e em 2020, terminou Yokohama em terceiro. O Max foi sexto: o melhor resultado dele desde Doha, e a classificação sugere que o carro chegou com as quatro rodas.

No ciclo de paradas, uma troca de pneus levou 18,065 segundos e custou posições. O nome no prontuário do C.H.E.N.™ é Lars Sabic, o mesmo que aparecia como substituto recomendado do Neydson Bölkhe depois de Vancouver. Foi a primeira infração dele, e a pena foi uma advertência. O helicóptero ficou no chão.

Testemunhas juram que a corrida aconteceu mais de uma vez. A redação só reconhece uma, e nela o resultado foi este.

Na tabela da circular a que a redação teve acesso, o terceiro lugar vale 4 MilhoCoins. Nas quatro vitórias do ano, o André levou 10 em cada.

E o herege da Boa Esperança? Esse resultado custa à parte.

1. O desafio

Foto de paparazzi no saguão de desembarque de um aeroporto japonês decorado com flores de cerejeira: um piloto alto, loiro, de barba aparada, óculos escuros e jaqueta de equipe verde-água e branca, puxa uma mala pequena e faz sinal de positivo com o polegar, cheio de si, sorrindo de lado, cercado de microfones e celulares erguidos por repórteres que não aparecem. 2021 ██ ██ 14:20
Desembarque — “Eu sou melhor piloto que ele. Simples assim.”

Os especialistas do paddock já decidiram: a Cruzeiro Real é a favorita em Yokohama. Tem o melhor carro do grid e um piloto que venceu quatro das cinco corridas do ano. Um homem discorda.

Johan Sylvander, da Boa Esperança, desembarcou no Japão e disse, para quem quisesse anotar: “André Gomes não merece estar no topo… Eu sou melhor piloto que ele. Simples assim.”

A redação anotou. E foi ao arquivo.

Sylvander chegou em segundo em Vancouver, 25 segundos atrás do André, depois de largar em segundo, três décimos atrás dele. No Rio, no ano passado, ficou a 59 milésimos da pole do André. E aqui, em Yokohama, em junho de 2020, na tarde do Assalto, terminou em terceiro. Ele estava lá. Viu o André vencer com a suspensão a 11% e a asa traseira a 8%. Viu a Família de uniforme listrado. Viu tudo e não disse nada. Até agora.

Vaidade ou vingança? A redação não sabe. Sabe que um homem que passa um ano olhando a traseira de outro acaba tendo opiniões.

E não foi o primeiro. Em Pequim, o André passou sete voltas preso atrás do Max, o companheiro de equipe, reclamando pelo rádio que estava olhando a traseira dele havia sete voltas. Depois da corrida, na coletiva, o DON declarou que o Max tinha pilotado melhor. O primeiro herege da temporada, portanto, foi o próprio DON. O Sylvander só repetiu, com sotaque.

Mas há outro herege na cidade. Saiu da igreja, entrou na Shoosh!, pagou rodada para o bar inteiro e voltou para o púlpito. Venceu aqui duas vezes: em 2019, machucado, e em 2020, no Assalto. A Família o chama de Ancião. O rapaz cuja namorada ele encarou na boate o chama de outra coisa. Quem volta à cena do crime, afinal, é quem cometeu o crime.

O herege, dependendo de quem conta, é um ou é outro. A redação conta os dois.

“Não é fácil estar na minha posição.” — Leonard Dellorusso, da Kirov, que também quer pontos em Yokohama. Ninguém perguntou qual posição. A redação também não.

2. A cena do crime

Yokohama quase deixou de existir. A GMA pôs em votação tirar o GP do calendário de 2022. Em 5 de maio, a remoção foi rejeitada. A pista ficou.

Quem mais queria salvá-la? A Ozu Motor Team, para quem Yokohama é “um dos seus terrenos favoritos”, e cuja piloto, Claudia Dreyfuss, disse que ficaria “devastada” sem ela. E a Família, que tem aqui dois assaltos para proteger. Na reunião que a Família chamou de Operação Salve Yokohama, segundo quem estava lá, o DON mandou registrar o voto contrário. O André lembrou que a pista foi “palco de uma das minhas maiores demonstrações de fé”. O DON lembrou que ele estava com o pescoço quebrado. O André respondeu: “O espírito permaneceu firme.”

Na quarta-feira, a pista é salva, para alívio da Família e da Ozu. Na quinta, 6 de maio, um jornalista chamado Jonathan Weinstein procura a Cruzeiro Real: prepara uma reportagem sobre a Ozu, com mecânicos sobrecarregados, falta de gente e “uma tonelada de dívidas”, e quer entrevistar os mecânicos da Cruzeiro como “ponto de referência”. Em ata a que a redação teve acesso, o DON teria abraçado a estratégia de bater no inimigo caído.

Na quarta, comemoram juntos. Na quinta, um afunda o outro. E o projetista-chefe da Cruzeiro continua com “um amigo na Ozu Motor Team”, segundo mensagem dele mesmo.

Quanto custa um voto na GMA? A redação não sabe. Sabe quanto custou o último: no ano passado, o DON propôs, por US$ 1 milhão, pôr Tondela no calendário, declarou-se indeciso sobre a própria proposta e ganhou por 7 a 5.

Numa sala de reuniões formal, com mesa de madeira escura, um martelo de juiz e cerejeiras na janela, uma urna de acrílico transparente com cédulas dobradas. Um envelope pardo e gordo está entalado na fenda da urna, grande demais para entrar, com folhas de hortelã saindo da aba. 2021 05 05 10:02
A urna — O envelope não coube. A hortelã, sim.
Uma garagem de equipe de corrida pobre e quase vazia, com painéis vermelhos e brancos, pneus gastos e uma caixa de ferramentas vazia. Um mecânico de macacão vermelho e branco dorme sentado numa pilha de pneus, com o rosto escondido nos braços. No chão sujo de óleo, em primeiro plano, um tabloide com a manchete EXPOSÉ. 2021 05 06 07:30
A Ozu na quinta-feira. A redação não diz quem deu entrevista ao Sr. Weinstein. Diz que os mecânicos da Cruzeiro andam de mal com o DON, e que gente de mal com o chefe fala.

3. O homem que perdeu a roda

Vancouver, pista molhada. Max Porter entrou nos boxes com quatro rodas e saiu com uma delas mal presa. Na ficha do trocador de pneus, o erro tem nome técnico: “Loose wheelnut!”, porca solta. A parada durou 12,271 segundos. Pelo rádio, o piloto informou à equipe: “My tyre is still missing guys! Pit me now!” Ninguém tinha avisado à roda.

O carro foi visto soltando faíscas, arrastando metal no asfalto. O boletim oficial da prova registrou apenas: “Max Porter has locked up!”, travou. Travou o quê, o boletim não disse.

Ainda com o carro na pista, numa reunião de crise, perguntaram ao projetista se ele tinha mandado tirar a roda. Ele explicou: “Requested, the fucking redução was! Too literally, the mechanics understood; innocent, I remain!”

Semanas antes, numa reunião sobre o desgaste de pneus do Max, segundo quem estava na sala, a reserva propôs a solução definitiva: “não montar pneus”. Em Vancouver, a engenharia ouviu.

Depois, com quatro rodas de novo e pneus macios novos, o Max fez a volta mais rápida da corrida até ali: 55,206, com o terceiro setor mais rápido até então. Estava em último. Mais tarde, a volta mais rápida foi para Jean-Pierre Gérard. O Max terminou em 16º, com quatro paradas.

O André venceu a mesma corrida por 25 segundos. É a mesma equipe, o mesmo carro e a mesma tarde. Um ganha. O outro perde peças.

Foto esportiva tirada atrás do alambrado da arquibancada, ao entardecer e sob chuva fina: um carro de corrida de pintura marrom-metalizada e dourada anda com só três rodas: onde devia estar a roda traseira, só o cubo de metal nu, que arrasta no asfalto molhado e solta um rastro de faíscas laranja. Mais adiante, a roda que faltava segue quicando sozinha pela pista. Dois carros ao fundo. 2021 06 ██ 15:12
Vancouver. O primeiro carro de corrida com iluminação própria. A roda que faltava, ao fundo, seguiu carreira solo.
À noite, uma roda de corrida solitária encostada num muro de concreto à beira da pista, cercada por fita zebrada amarela e preta presa em dois cones, como cena de crime, com uma plaquinha amarela de evidência no chão. 2021 06 ██ 21:40
A vítima. Encontrada encostada no muro, horas depois. Não quis falar. Pediu para ser chamada apenas de “a roda”.
No pit lane, uma mecânica de rabo de cavalo preto e macacão preto e dourado, de costas e com o rosto virado, segura uma prancheta e aponta a caneta para cada roda de um carro marrom e dourado, contando com toda a seriedade. Na prancheta, uma coluna de risquinhos. 2021 ██ ██ 09:15
Um, dois, três, quatro. A partir de Yokohama, as rodas da Cruzeiro Real são contadas antes e depois de cada parada. Os pilotos, ainda não.
FLAGRA FM 101,3 Ouça Vancouver como foi A rádio do jornal estreia com o Grande Prêmio das Três Rodas, narrado aos berros por Reginaldo Trovão, com o rádio do Max ao vivo. Em inglês, a língua do paddock. Ouça na FLAGRA FM →

4. Procurando Nemo

Na ficha do pit crew da Cruzeiro Real, um nome tem dois erros: N. Bölkhe, trocador de pneus. Pneus: 15. Fôlego: 64 de 99. Erros: 2. O segundo foi a porca de Vancouver.

Segundo ata da contraespionagem da Família, o C.H.E.N., a que a redação teve acesso, a norma interna é clara. Um erro: advertência. Dois erros: “transferência administrativa”. A sentença tem codinome, Procurando Nemo, e a ata registra os detalhes: cimento nos pés, um contêiner, um helicóptero abastecido e o Oceano Índico. Pela gravidade da falha, cimento extra. Passagem só de ida.

O Sr. Süle, mecânico alemão, lembrou que o homem poderia simplesmente ser demitido. O DON respondeu: “A demissão é justamente o que estamos organizando.”

A redação procurou o Neydson. No porto, no aeroporto e no fundo do mar. Não encontrou. Encontrou a recomendação técnica: tirá-lo da escala e pôr no lugar um reserva, L. Sabic, pneus 17, fôlego 87 de 87, zero erros. O Sabic não quis falar. Dizem que tem medo de água.

A colega Úrsula Malo, do macaco dianteiro, errou uma vez, em Phoenix, no dia em que o Max largou na pole e chegou em 11º. Pela norma, não é reincidente. Está em observação. Pela mesma norma, o próximo erro dela é o Oceano Índico. Dizem que anda de boia.

Neydson, se você estiver lendo: a redação paga melhor que o oceano.

À noite, sob chuva, um cartaz de papel molhado grampeado num poste de madeira num porto de contêineres, com a palavra PROCURA-SE no alto e, no lugar da foto, a silhueta preta de um homem com um grande ponto de interrogação branco. Ao fundo, pilhas de contêineres, um guindaste e o holofote de um helicóptero no céu. 2021 ██ ██ 02:30
Visto pela última vez com uma chave de roda na mão. A porca, não.
Numa mesa de aço inox, sob luz dura, uma única porca de roda de corrida lacrada num saquinho plástico de evidência com fita vermelha, ao lado de uma chave de torque e de uma régua, como a prova principal de um julgamento. 2021 06 ██ 22:05
Prova nº 1. A porca. Tem advogado.

5. A vidente, o apostador e a água benta

Doha, 2 de maio: o André venceu. Um torcedor chamado Joran van der Werf comemorou e lamentou ao mesmo tempo: uma vidente tinha previsto a vitória, e ele não apostou. Outro torcedor, Robin Corney, não precisou de vidente: apostou na Família em algum momento da temporada e anunciou que vai buscar o dinheiro que ganhou graças a ela.

A redação foi atrás da vidente e não precisou de bola de cristal. O carro da Cruzeiro é o melhor do grid, e o piloto tinha vencido as duas corridas anteriores. Prever vitória do André é como prever que amanhã vai ter segunda-feira. A vidente não lia o futuro. Lia a classificação.

Um teve a profecia e não apostou. O outro apostou sem profecia. Juntos, Joran e Robin seriam um homem rico. Separados, um é torcedor e o outro, cliente.

A única profecia de verdade da temporada não foi da vidente. Foi da reserva, depois de Doha: tirar os pneus do carro do Max. Em Vancouver, tiraram um.

E tem a água benta. Segundo o folclore oficial da própria Família, o carburador do André ganhou uma plaquinha: Água benta, uso exclusivo. Lá dentro, a vantagem do melhor carro do grid é tratada como prova sobrenatural, e o piloto, como Ancião. Cá fora, isso tem outro nome. A GMA não testa água benta. Ainda.

Dentro de uma cabine de cartomante com cortina de contas e luz roxa, uma vidente de turbante dourado e argolas grandes encara uma bola de cristal onde flutua um carrinho de corrida. Debaixo da mesa, escondida, ela segura uma folha impressa com a classificação do campeonato, o dedo na primeira linha. 2021 05 ██ 19:00
A vidente de Doha. Debaixo da mesa, a fonte das visões.
Pela vitrine de uma casa de apostas, um homem gordinho e feliz, de boné simples e cachecol esportivo, abraça uma pilha de dinheiro no balcão e ergue um bilhete de aposta para a janela. Atrás, telas com carros de corrida borrados. 2021 05 ██ 11:30
Robin Corney, ou alguém muito parecido, vai buscar o dinheiro. A Família não ganhou comissão. A redação também não. Ainda.
Foto de flash tirada pela fresta de uma porta de garagem: no compartimento do motor de um carro de corrida marrom e dourado, um frasquinho de água benta com uma cruz na tampa está preso com abraçadeira numa linha de combustível, com um tubinho entrando no motor. Pendurado nele, um terço de madeira. Rebitada na tampa do motor, uma plaquinha de latão com as palavras ÁGUA BENTA. Folhas de hortelã espalhadas. 2021 ██ ██ 04:12
O carburador do Ancião. Uso exclusivo. A hortelã é por conta do projetista.

6. A mesa redonda do O FLAGRA

Estúdio de debate de TV de madrugada, com bancada curva azul e uma cidade iluminada ao fundo. Seis especialistas encaram, com toda a seriedade, uma roda de corrida deitada no meio da bancada: um padre grisalho, um rapaz de terno brilhante, um curandeiro de túnica estampada com uma maquininha de cartão, uma senhora de cabelo armado e fone de dublagem no pescoço, um borracheiro de macacão sujo com uma chave de roda e um ex-goleiro de agasalho e luvas de goleiro. Em primeiro plano, de costas e desfocado, o mediador de sobretudo bege e boina, com um pote de linhaça na mesa. Ao vivo
No estúdio — Seis especialistas, um mediador sem opinião e um convidado que chegou sozinho: a roda
Padre grisalho de colarinho clerical e blazer escuro, de mãos postas com um terço de contas amarelas, olhando de lado com a sobrancelha erguida.
Rev. Dr. Clóvis AmaranteTeólogo do esporte
Curandeiro de uns sessenta anos, de túnica estampada colorida e colar de contas, óculos de leitura na ponta do nariz, mostra para a câmera uma maquininha de cartão com um recibo saindo, com cara de quem já cobrou.
Papa Mbuyi KalonjiConsultor espiritual do paddock
Senhora de cabelo volumoso e armado, brincos grandes e fone de estúdio de dublagem no pescoço, leva a mão ao peito, em choque teatral, segurando um roteiro.
Dona Socorro ValadaresDubladora de novela mexicana há 30 anos
Borracheiro de bigode grisalho e macacão sujo de graxa, com uma chave de roda em cruz no ombro, examina com uma lupa uma porca de roda entre os dedos.
Seu JairoBorracheiro há 30 anos, perito em porca
Ex-goleiro grandalhão de agasalho esportivo surrado, ainda com luvas de goleiro, sentado no estúdio com cara de quem não sabe por que está ali.
Marcão ParedãoEx-goleiro da Série D, convocado de última hora
Rapaz de terno cinza, cabelo com gel e relógio grande aponta, sorrindo, para um quadro branco onde dois carrinhos desenhados trocam de lugar pelas setas.
Rogério “Mercado” TavaresAnalista de transferências

O estúdio é o mesmo, alugado pela mesma hora. A mesa, não: a Prof.ª Heloísa, o Seu Valdir e a Dona Lúcia ficaram de fora por questões contratuais (pediram aumento). A redação contratou quem coube no orçamento. Um dos convidados faltou; veio quem atendeu o telefone.

A pergunta da noite circula pela internet e chegou à redação por um leitor: “Os crentes dizem que Deus nos deu livre-arbítrio, mas também dizem que tudo que acontece é de acordo com o plano de Deus. Então como é que essas duas frases podem ser verdade ao mesmo tempo?”

O FLAGRA: Reverendo, as duas frases podem ser verdade ao mesmo tempo?

Rev. Clóvis: Podem, do mesmo jeito que o dízimo é voluntário e obrigatório. Deus desenhou o circuito. O livre-arbítrio é você achar que escolheu a marcha.

O FLAGRA: Papa Kalonji, o reverendo resolveu o paradoxo de graça. O senhor concorda?

Papa Kalonji: Concordo em não trabalhar de graça. Livre-arbítrio é avulso. Plano de Deus é mensalidade. A conciliação das duas sai com nota fiscal.

O FLAGRA: Então a vitória do André é plano. E a boate às seis da manhã?

Rev. Clóvis: O plano explica o pódio. O livre-arbítrio explica o horário de saída. Deus não bate ponto depois do expediente. O Ancião, pelo visto, também não.

O FLAGRA: Papa Kalonji, e a água benta no carburador?

Papa Kalonji: Água benta sem cupom é informalidade, não milagre. A chuva da largada em Vancouver fui eu, e eu lanço no crédito, em três vezes. O carburador dele que parcele.

O FLAGRA: O senhor está dizendo que a chuva de Vancouver foi serviço seu?

Papa Kalonji: Estou dizendo que ninguém mais emitiu recibo. E um compatriota meu, que abandonou na estreia, largou em segundo em Doha e chegou em segundo. Ninguém renasce de graça. a fatura dele: 4 sacos

O FLAGRA: Seu Jairo, o senhor examinou a porca de Vancouver. Plano de Deus ou livre-arbítrio do mecânico?

Seu Jairo: Nem um nem outro, moço. Essa porca não soltou. Essa porca nunca foi apertada. Trinta anos de borracharia, e Deus nunca apertou uma porca pra mim.

O FLAGRA: Um carro sem uma roda ainda é um carro?

Seu Jairo: É carrinho de mão de luxo. Eu já rodei três dias numa Brasília com estepe de bicicleta. O problema não é a roda. É o freguês perceber. Esse aí percebeu porque o carro acendeu.

O FLAGRA: Marcão, o Max fez a volta mais rápida estando em último. Como o senhor lê isso?

Marcão: Defesa do ano depois de levar cinco. No meu tempo, isso dava elogio no jornal e multa no vestiário.

O FLAGRA: E a porca solta?

Marcão: Frango. O rapaz já tinha um frango na conta, saiu do gol, e o Max arrastou a trave no asfalto. E o pior: semanas antes, a reserva tinha falado, de deboche, para não montar pneu. No vestiário, quem avisa amigo é.

O FLAGRA: A Família teria condenado o mecânico ao “Procurando Nemo”: cimento nos pés e Oceano Índico. Isso entra na súmula?

Marcão: Entra como lance que eu não vi. Cimento nos pés eu não pulo. E Procurando Nemo, pra mim, é desenho. Se o regulamento virou filme, me avisem antes do apito.

O FLAGRA: Rogério, e o mecânico, se estiver vivo, quanto vale hoje?

Rogério: Aqui, um contêiner. Na Ozu, que segundo o próprio jornalista do exposé está sem gente, vale ouro. Se o Neydson não está no fundo do mar, está de macacão vermelho e branco. Eu só fiz a conta. A conta fecha.

O FLAGRA: E a Ozu? Na quarta, a pista foi salva para alívio dela e da Família. Na quinta, levou uma reportagem nas costas.

Rogério: Fusão hostil. Primeiro você comemora junto, depois espera a ação do sócio cair. Quem compra na baixa, eu não sei. Sei que o projetista tem amigo lá.

O FLAGRA: Marcão, o Sylvander diz que é melhor que o André. Simples assim. Chegou em segundo em Vancouver, 25 segundos atrás.

Marcão: Segundo a 25 segundos é reserva de banco de concreto. Pedir a braçadeira depois de tomar o gol é discurso de capitão que nunca pegou na bola.

O FLAGRA: Papa Kalonji, a declaração dele cabe no plano de Deus?

Papa Kalonji: Cabe no orçamento, se ele pagar. “Sou melhor, simples assim”, sem maquininha, é torcedor gritando. Com maquininha, é previsão.

O FLAGRA: Reverendo, e quem é o herege?

Rev. Clóvis: Depende do domingo. Se o Ancião vencer, o outro foi herege. Se perder, foi profeta. A Igreja sempre decide depois da bandeirada.

O FLAGRA: Dona Socorro, a reserva avisou ao chefe que, conhecendo o marido, o divórcio pode ficar confuso. Que capítulo é esse?

Dona Socorro: Isso é capítulo 180, querido, e nós estamos no primeiro. “Pode ficar confuso” não é desabafo. É gancho de intervalo. E o marido ainda nem foi dublado.

O FLAGRA: Na ficha dela, agora, está escrito “A vida é maravilhosa”. Por oito semanas.

Dona Socorro: A ficha está mais otimista que a personagem. Novela mexicana não acredita em final feliz. Acredita em prazo. Daqui a oito semanas, quem se divorcia é o carimbo.

Para encerrar, o mediador fez uma pergunta só: se a roda, a boate, os 25 segundos e o carimbo de oito semanas já estavam no plano, sobra algum livre-arbítrio nesta mesa? O reverendo: “Sobra o de fingir que a pergunta era isenta.” Papa Kalonji: “Sobra, sim: no débito ou no crédito.” Seu Jairo: “Sobra a porca. Ninguém sabe onde ela foi parar.” Marcão: “Sobra o goleiro, que não foi convocado e mesmo assim levou o gol.” Dona Socorro: “Sobra o próximo capítulo, que já está escrito e ninguém leu.” O Rogério perguntou quanto a redação pagaria pela resposta. Desta vez, a redação pagou.

O FLAGRA não tira conclusões. Deixa todas à vista, para quem quiser pegar.

El Linhaça Ads™: este espaço paga o aluguel do estúdio, por hora.

7. Novela

À luz de vela, numa noite de chuva, uma moça de cabelo castanho escreve uma carta à mão. Estreia · Uma produção O FLAGRA Margarida ¡Mi corazón a mil por hora! Divorciada aos dezoito, feliz por oito semanas por decreto da federação, e com um coração que dispara a mil por hora. A reserva mais pessimista do grid ganhou uma novela mexicana, em capítulos, dublada por Dona Socorro Valadares. Assista aos capítulos →

8. Enquanto isso, na Família

Na oficina, a ciência avança. Segundo quem estava na reunião que a Família batizou de A Guerra dos Freios Clonados, o projetista Ken Obi achou um componente que fabrica uma peça extra de graça. Saíram dois jogos de freios iguais, ao mesmo tempo, do mesmo molde. Confiabilidade: 40%. Os dois.

“Two fucking clones, from one molde we have created! Reliable at birth, they are not; expendable, the Republic considers them!” — Ken Obi, segundo a ata

O DON perguntou se ele tinha clonado os freios ou os defeitos. O Max perguntou se finalmente teria os mesmos freios do André. O DON respondeu que ele ganharia um clone. O Max exigiu o original. O DON informou que os dois são originais. O André lembrou a multiplicação dos pães e dos peixes. O Sr. Süle implorou que parassem de comparar engenharia com milagre. Numa reunião anterior, o DON já tinha decretado a Ordem 66: fabricar 66 câmbios e torcer para dois funcionarem.

Na mesma oficina nasceu uma asa traseira de risco zero, que a Família apelidou de Ficha Limpa e, entre íntimos, de Asa de Merda Anistiada. Legislação em ordem; confiabilidade inicial de 20%. Na Família, a anistia é anual: peça que nasce irregular em dezembro, segundo quem conhece a casa, amanhece legal em janeiro. No ano passado, ainda segundo a mesma fonte, foram oito corridas com peça irregular e um flagrante só. E a corrida do flagrante, diz a lenda da garagem, aconteceu duas vezes. Na segunda, ninguém foi flagrado.

E o simulador. A Família inaugurou um simulador novo no dia 21 de maio. No dia 30, segundo mensagem interna, o projetista já pedia outro, “para acompanhar as equipes de ponta”. A Cruzeiro Real tem o melhor carro do grid. Mais tarde, Harry Chapman, da MacNeil, declarou à imprensa que o carro dele é inguiável e que vai treinar no simulador. A redação não liga uma coisa à outra. A redação só pergunta onde foi parar o simulador velho.

Numa bancada engordurada de oficina, dois discos de freio de corrida de carbono com pinças douradas, absolutamente idênticos, lado a lado como gêmeos. Cada um tem uma etiqueta de papel pardo amarrada com barbante, e as duas dizem ORIGINAL. Atrás, um barril de metal, algumas espigas de milho e folhas de hortelã. 2021 ██ ██ 03:33
Os gêmeos. Os dois são originais. Os dois têm 40% de confiabilidade. Os dois cheiram a hortelã.

Horóscopo do Grão

Doze sementes, doze destinos O astrólogo da redação não lê estrelas: lê relatórios internos. Descubra o seu grão, quem tem cara de quê e quanto custa uma previsão melhor. Com a Zoltaça, que realiza desejos sem estar na tomada. Leia o seu signo → Milho Feijão Amendoim Coco Girassol Arroz Café Mamona Mostarda Soja Chia Linhaça

9. Classificados

Esta seção é um oferecimento de Toró & Urucubaca Chuva para você. Azar para os outros. O Pajé Toró faz chover só no carro do rival, e o boneco de sabugo vem com a cara de quem você quiser. Conheça os pacotes →

Vende-se ichor, a merda dos deuses. Nitro de origem divina, uma gota por tanque. Três frascos. Tratar com Hermes. Ver o anúncio →

Achado em Vancouver: uma roda de corrida, aro de magnésio, pouco uso, encostada no muro. O dono pode retirá-la quando conseguir parar.

Procura-se trocador de pneus que saiba apertar porca. Experiência com oceano é diferencial. Tratar com a Chen.

Vende-se simulador seminovo, nove dias de uso. Obsoleto. Tratar com o projetista, que já encomendou outro.

Troca-se freio clonado por freio original. Os dois são originais.

Vende-se contêiner, helicóptero e cimento de pega rápida. Usados uma vez. Viagem só de ida.

Aluga-se pista em Yokohama, salva por votação. Assaltos mediante reserva.

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