Pré-temporada · Fevereiro de 2021 Edição Nº 2 Preço: dois sacos de milho (inflação)

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Você está no arquivo: esta é a edição 2, de fevereiro de 2021. A edição atual está na capa; as outras, em Edições.

Um pombo cinza de capacete de obra amarelo com uma câmera, peitoral com fenda de moeda e crachá com tarja, visto num retrovisor em visão vermelha de máquina. Plantão · Disse-me-disse do Paddock Provas se perdem O piloto mais certinho do grid comprou uma peça ilegal e tentou subornar a GMA. A GMA recusou. A redação tem as fotos, e é mais flexível. Leia a fofoca →

Exclusivo · Com mesa redonda

Noite na Shoosh!

O campeão pagava a rodada. O engenheiro fechava negócio.

por El Linhaça

Foto de paparazzi ao amanhecer: na porta de uma boate com um letreiro de neon rosa em forma de lábios com um dedo pedindo silêncio, um leão de chácara careca de braços cruzados olha para o lado. Na calçada molhada, de costas, um homem de boné azul e jaqueta de equipe azul e branca caindo do ombro vai embora com um sapato na mão e um livro de capa escura debaixo do braço. No chão, confete e uma coroa de festa. 2021 02 ██ 06:04
06:04 — A saída pela porta da frente, com um sapato a menos e uma bíblia a mais

Às 6h04 de uma manhã de fevereiro que a redação prefere não precisar, André Gomes, bicampeão (ERS 2018, APC 2020), Ancião Narcisista das Testemunhas de Zodion e piloto da equipe com o melhor carro do grid, deixou a boate Shoosh! cambaleando pela porta da frente. Levava um sapato na mão e, debaixo do braço, um livro de capa escura e borda dourada.

A Shoosh! é conhecida por atrair “as pessoas mais brilhantes e bonitas do mundo”. A redação frequenta a casa há anos, por dever de ofício.

Segundo frequentadores, o piloto pagou uma rodada para o bar inteiro. Um deles saiu encantado: “O André pagou bebida para todo mundo!”. Outro, nem tanto: “Esse ████ passou a noite inteira encarando a minha namorada. Tomara que ele bata na próxima corrida.” A redação não sabe quem é o ████. A redação sabe quanto custa saber.

A ficha da federação, que tudo registra, registrou também: o campeão ganhou um carimbo novo, Clubgoer. Em português de tabloide, frequentador de balada. Fica ao lado do outro, Committed to Religion. Os dois, até onde a redação apurou, não brigam. Revezam-se.

A notícia saiu primeiro na XBC Sport. O FLAGRA não chegou depois: estava lá dentro e preferiu esperar a conta fechar. Procurados, os representantes do piloto não quiseram comentar. Os do pombo também não.

“Os números terrenos não representam o valor espiritual de um campeão.” — André Gomes, segundo quem estava na sala

Porque a noite não veio sozinha. Na mesma semana, circulou pela Família um relatório técnico da temporada. A Cruzeiro Real tem o melhor carro do campeonato, o melhor staff, os melhores patrocinadores e um pit crew entre os melhores do grid. E tem os piores pilotos: décimo lugar entre dez equipes.

E não foi só o piloto que saiu à noite. Em mensagem interna, o projetista-chefe Ken Obi conta ao DON que passou “a noite passada” conversando com “um amigo da Ozu Motor Team”. A Ozu tem o pior carro do grid e pilotos entre os melhores. É a Cruzeiro Real virada do avesso.

Foi a mesma noite? A redação não afirma. A redação só fotografou a mesa do canto (veja ao lado).

A investigação continua. E, desta vez, com especialistas.

O relatório, corrigido pela redação

Em verde, o relatório interno da Cruzeiro Real a que a redação teve acesso. Em amarelo, os pilotos. Em vermelho, as colunas que o relatório esqueceu e a redação acrescentou, por zelo.

O espelho
EquipeCarroPilotos
Cruzeiro Real1º10º
Ozu Motor Team10º4º
MRT Valbuena8º1º

Uma equipe tem o carro e não tem piloto. A outra tem piloto e não tem carro. O projetista de uma passou a noite conversando com a outra. A redação não faz contas. A redação conhece quem faça (veja a mesa redonda).

A mesa redonda do O FLAGRA

Estúdio de debate de TV de madrugada, com bancada curva azul e uma cidade iluminada ao fundo. Cinco especialistas encaram a câmera: um padre grisalho de mãos postas, uma senhora de coque e óculos grossos mostrando um gráfico de barras, um homem de camisa polo erguendo um celular, uma mulher de óculos escuros com um copo de tônica e um rapaz de terno cinza apontando um quadro branco. Em primeiro plano, de costas e desfocado, o mediador de sobretudo bege e boina, com um pote de linhaça na mesa. Ao vivo
No estúdio — Cinco especialistas e um mediador sem opinião nenhuma
Padre grisalho de colarinho clerical e blazer escuro, de mãos postas com um terço de contas amarelas, olhando de lado com a sobrancelha erguida.
Rev. Dr. Clóvis AmaranteTeólogo do esporte
Senhora de coque grisalho e óculos de armação grossa mostra um gráfico com quatro barras verdes altas e uma amarela minúscula, que ela aponta com a caneta, escandalizada.
Prof.ª Dr.ª Heloísa PachecoEstatística, doutora em barras
Homem de bigode e camisa polo, com crachá e um suporte de celular preso na gola, ergue um celular que mostra duas estrelas e meia. Na mesa, água e uma caixinha de balas.
Valdir “Cinco Estrelas” MouraMotorista de aplicativo, 38 mil corridas
Mulher de óculos escuros, lenço de seda e vestido preto de festa ergue um copo de tônica com limão, sorrindo de cansaço. Na frente dela, dez copinhos de dose vazios enfileirados.
Lúcia DornelesSommelière de ressaca
Rapaz de terno cinza, cabelo com gel e relógio grande aponta, sorrindo, para um quadro branco onde dois carrinhos desenhados trocam de lugar pelas setas.
Rogério “Mercado” TavaresAnalista de transferências

Para discutir o caso com a isenção que ele exige, O FLAGRA reuniu cinco especialistas num estúdio alugado por hora. O mediador não tem opinião. Tem perguntas.

O FLAGRA: Reverendo, não estou dizendo que o André bebeu. Estou só perguntando: seis da manhã é horário de culto ou de ressaca?

Rev. Clóvis: Meu filho, o Senhor não usa relógio. Muitos profetas foram vistos saindo de lugares estranhos de madrugada. Jonas saiu de dentro de uma baleia. A Shoosh! é menor.

O FLAGRA: E a rodada para o bar inteiro?

Rev. Clóvis: A multiplicação, na versão líquida. Agora, se a rodada saiu do bolso do DON, aí já é Antigo Testamento: o dízimo é de quem paga.

O FLAGRA: Professora, o relatório saiu na mesma semana da boate. É coincidência ou é correlação?

Prof.ª Heloísa: Eu nunca afirmo causalidade. Eu apenas observo que a barra dos pilotos tem exatamente a altura de um copo de dose deitado.

O FLAGRA: A senhora está dizendo que o campeão derrubou a média?

Prof.ª Heloísa: Estou dizendo que a equipe tem três pilotos e uma barra só. A reserva entra na conta. Alguém está carregando os outros. Para baixo.

O FLAGRA: Seu Valdir, o senhor tem 38 mil corridas. O senhor entraria nesse carro?

Valdir: No carro, entrava ontem. Melhor carro do grid, tudo original, cheirinho de fazenda. O problema é o motorista. Duas estrelas e meia. E a meia estrela é porque ele ofereceu bebida, que no aplicativo é proibido, mas é simpático.

O FLAGRA: E o rapaz que reclamou da namorada?

Valdir: Motorista que encara a namorada do passageiro pelo retrovisor, eu já descadastrei por menos.

O FLAGRA: Dona Lúcia, uma rodada para o bar inteiro, às cinco da manhã. Comemoração ou queima de arquivo?

Lúcia: Na Shoosh!, uma rodada são uns trezentos drinques. Quem paga trezentos drinques às cinco da manhã não está comemorando: está comprando silêncio. Pela minha experiência, o silêncio lá custa uma tônica com limão por testemunha.

O FLAGRA: A senhora estava lá?

Lúcia: Eu estava esta resposta custa 2 sacos.

O FLAGRA: Rogério, a Ozu tem o pior carro e bons pilotos. A Cruzeiro tem o melhor carro e os piores. O que um projetista faz à meia-noite com a concorrência?

Rogério: Mercado, meu amigo. Olha o quadro: o carro de cá vai para lá, os pilotos de lá vêm para cá. Cada um tem exatamente o que falta ao outro. Em sacos de milho, é o negócio do século.

O FLAGRA: O senhor está dizendo que houve negociação?

Rogério: Eu? Quem disse foi o próprio projetista, por escrito: “conversando com um amigo da Ozu”. Eu só fiz a conta. E a conta fecha.

O FLAGRA: Para encerrar, uma pergunta só, para todos: alguém aqui acha que foi coincidência?

Silêncio no estúdio. O reverendo rezou. A professora pediu um intervalo de confiança. Seu Valdir deu cinco estrelas à pergunta. Dona Lúcia pediu outra tônica. O Rogério perguntou quanto a redação pagaria pela resposta.

O FLAGRA não tira conclusões. Deixa todas à vista, para quem quiser pegar.

Fomos à Shoosh!

O leão de chácara“Não vi ninguém. E o que eu vi saiu às seis e quatro.”

A garçonete“Ele pediu suco de milho. Batizado. Batizado no sentido religioso, ele fez questão de explicar.”

O DJ“Pediu três vezes a mesma música. Um remix de ‘Aleluia’. Na terceira, a pista inteira já sabia a letra.”

O garçom da mesa do canto“Um careca de óculos, cheirando a hortelã, falando tudo ao contrário com um rapaz de jaqueta cinza. A única coisa que eu entendi foi: ‘Empty, this fucking envelope is! Of hortelã only, it smells!’. Deu gorjeta em milho.”

Kléber, 29, personal trainer“A namorada era minha, sim. E eu quero meu nome no jornal. Pior que o décimo lugar não dá para ficar: eu tenho carteira de motorista e ressentimento. Se a equipe quiser, eu piloto.”

O relógio da portaSegundo o leão de chácara, está adiantado desde 2019. Ou atrasado. Ele não lembra.

Enquanto isso, na Família

A Família leu o relatório numa reunião extraordinária que alguém batizou de “A verdade inconveniente”. Segundo quem estava na sala, a notícia dos pilotos foi recebida em silêncio pelo DON, depois em volume máximo. Um piloto exigiu um carro melhor. Lembrado de que o carro já é o primeiro, exigiu um ranking melhor. A reserva concluiu que, se a culpa é dos pilotos, já se sabe quem será demitido primeiro. Informada de que também entra na média, concluiu que conseguiu piorar a situação, “como era de esperar”. Um engenheiro alemão concordou com ela, e o DON, aos gritos, pediu que ele parasse de concordar com a portuguesa.

Dias depois, a contraespionagem da Família, que já procurava um traidor, achou outro: a tal mensagem do projetista sobre o “amigo da Ozu”. Numa ata que circulou pela ala técnica, o projetista explica que só falou de telemetria. Um colega observa que ninguém tinha perguntado sobre ligas metálicas. O projetista responde:

“A fucking coincidência, this is! Suspicious, your questions have become!”

Perguntado se vende projeto para a concorrência, foi categórico:

“Sell our fucking segredos, I would never! Sell obsolete parts, perhaps I might!”

Consultado sobre uma auditoria, o DON mandou preparar dois barris, “um pra testemunha e outro pra documentação”. A reserva resumiu a semana: “A única coisa realmente fiável nesta equipa é a falta de vergonha”. Ganhou aumento.

Horóscopo do Grão

Doze sementes, doze destinos O astrólogo da redação não lê estrelas: lê relatórios internos. Descubra o seu grão, quem tem cara de quê e quanto custa uma previsão melhor. Com a Zoltaça, que realiza desejos sem estar na tomada. Leia o seu signo → Milho Feijão Amendoim Coco Girassol Arroz Café Mamona Mostarda Soja Chia Linhaça

Classificados

Vende-se ichor, a merda dos deuses. Nitro de origem divina, uma gota por tanque. Três frascos. Tratar com Hermes. Ver o anúncio →

Procura-se piloto para a equipe com o melhor carro do grid. Não exige fé. Exige estar acordado às nove. Tratar com o DON. Cristãos e notívagos, não insistir.

Achado na calçada da Shoosh!: livro de capa escura e borda dourada, marcado na página do “não cobiçarás a mulher do próximo”. Retirar na portaria.

Perdido um sapato, pé esquerdo, número de campeão. Gratifica-se com uma rodada.

Vende-se comanda de bar, quatro metros, original. Valor histórico. Aceito troca por pilotos.

Aluga-se mesa de canto, discreta, à prova de telemetria. Hortelã por conta da casa.

Curso intensivo: como conversar com a concorrência à meia-noite sem dizer nada sobre ligas metálicas. Turma lotada.

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