Véspera de Munique · 2021 Edição Nº 4 Preço: quatro sacos de milho (a inflação chegou à federação)

O FLAGRA

“Pagando bem, que mal tem?”
“Pagando bem, até falo a verdade.”— El Linhaça

Você está no arquivo: esta é a edição 4, da véspera de Munique, 2021. A edição atual está na capa; as outras, em Edições.

Num estacionamento, um homem de sobretudo bege, chapéu e óculos escuros abre o casaco cheio de produtos pendurados; no chão, uma mala aberta; atrás, uma van branca abarrotada. Plantão · Edição extra Mercado negro no paddock Ele abriu o casaco no estacionamento. Dentro, buzina de peido, peido alemão e bandeira quadriculada de bolso. Quem comprou, a redação não diz. Leia a edição extra →

Exclusivo · Documento

Vende-se uma votação

O presidente da federação cobra US$ 1 milhão para pôr uma votação na pauta. O DON já pagou uma vez.

por El Linhaça, que leu a carta por cima de um ombro

Atualização · 2021 07 23, escrita na praia

Pagou, e era o Weight Stripping. O DON pagou o milhão do presidente da federação. A votação extraordinária foi a do veto ao regime de emagrecimento dos carros, e passou por 8 a 3.

Segundo quem estava na sala, o DON comemorou “MINHA PRIMEIRA VITÓRIA ELEITORAL COMPRADA!”. O Sr. Süle lembrou que, tecnicamente, se pagou pela inclusão na pauta, e que a aprovação veio dos votos.

A redação perguntou e insinuou. Estava certa. E estava de férias: a volta está na edição 5.

1. A carta

Foto de teleobjetiva por uma janela entreaberta: numa mesa de madeira escura, sob um abajur verde de banqueiro, uma folha de papel timbrado com um selo dourado e as letras GMA. Ao lado, um maço de notas de cem dólares, uma caneta-tinteiro aberta e um copo de uísque. Uma mão de anel de ouro e punho engomado empurra a carta para a frente. 2021 07 ██ 23:10
O documento — Papel timbrado, selo dourado e um preço

A carta chegou com o timbre da federação, o selo dourado e a assinatura de quem manda nela: Ernie Hecklerock, presidente da GMA. O mesmo homem que, em maio, assinou a decisão que salvou Yokohama.

Segundo quem a leu, a carta diz, sem rodeios: “Gostaria de propor uma votação extraordinária? Naturalmente, não vou permitir isso sem uma compensação. Um milhão de dólares. Que me diz?”

A redação releu três vezes. Não é uma multa, não é uma taxa e não é uma inscrição. É uma compensação. A federação que fiscaliza o campeonato oferece, a uma equipe, o direito de pôr um assunto em votação. O preço vem no mesmo parágrafo que a oferta.

E o destinatário não é qualquer um. É o chefe da equipe que lidera o campeonato com folga: 88 pontos, cinco vitórias em sete corridas, os dois pilotos em primeiro e segundo. Quem já tem tudo, pelo visto, ainda pode comprar a pauta.

A Família pagou? A redação não sabe. Sabe como a Família reagiu.

2. O precedente

Não é a primeira vez. No ano passado, o DON pagou US$ 1 milhão para propor que Tondela entrasse no calendário de 2021. Tondela é onde a Cruzeiro Real venceu pela primeira vez, e é a pista onde o André, segundo a ficha da federação, corre como especialista.

Na entrevista antes da votação, o autor da proposta declarou-se indeciso. Cogitou se abster da própria proposta. Ganhou por 7 a 5. O voto dele, como o de outro chefe, valia por dois.

Um homem que paga um milhão por uma votação e depois não sabe em quem votar é, para a redação, um homem que já sabe o resultado.

A diferença é que, da outra vez, a iniciativa era da equipe. Agora a federação mandou a proposta pelo correio, com o preço. O mercado amadureceu.

3. O que se vota

A carta não diz o que se votaria. A Família diz, sem querer. Um minuto depois da reunião da tabela de preços, segundo a mesma fonte, o DON convocou outra e anunciou: “SENHORES! QUERO PROIBIR WEIGHT STRIPPING! CANSEI DE PAGAR MILHÕES POR UM MOTOR PARA O MAX TRANSFORMAR METADE DELE EM SUCATA!”

Weight stripping é como o paddock chama o regime de emagrecimento do carro: tira-se tudo o que pesa, para andar mais rápido, e reza-se para o que sobrou aguentar. A Cruzeiro Real é, segundo os próprios documentos, uma das praticantes mais dedicadas do grid. Em Phoenix, o DON admitiu ter emagrecido os dois carros com agressividade.

E tem mais. No ano passado, a Família já tinha pensado em pagar um milhão para proibir o regime. Desistiu, segundo o arquivo dela mesma, porque pagar para proibir uma ferramenta que a própria equipe usava “deixou de parecer atraente”.

O que mudou? O Max. A única corrida que o Max venceu em 2021, Dubai, foi sem emagrecimento nenhum. A Família descobriu que o carro inteiro anda. O homem que mais desmonta carro no paddock quer agora proibir desmontar carro, e a federação oferece a urna pelo preço de sempre.

A redação não diz que as duas reuniões são a mesma conversa. Diz que aconteceram com um minuto de diferença.

Numa garagem de equipe, um carro de corrida marrom e dourado está em cima de uma enorme balança mecânica de feira, de ponteiro. No chão, ao lado, as peças tiradas do carro: o banco, a carenagem, parafusos e um extintor. Encostadas na parede, espigas de milho. 2021 ██ ██ 05:20
A dieta — Na balança, o carro. No chão, o que ele perdeu.

4. Rico demais

Um milhão, para a Família, é troco. Em outra reunião, segundo quem estava no salão, o DON apresentou o balanço: US$ 58,7 milhões em caixa. No fim do ano passado eram 41,9. Depois de Phoenix, 55,7. A Cruzeiro Real é a única equipe do grid em que o dinheiro cresce mais rápido que a gasolina acaba.

“TEMOS O MELHOR CARRO, DOIS PILOTOS LIDERANDO O CAMPEONATO E QUASE SESSENTA MILHÕES NO BANCO! ALGUÉM ME EXPLICA COMO A FAMILHA CHEGOU A ESSE ABSURDO?!”, perguntou o DON. O André explicou: o Senhor recompensa os que trabalham com fé. O projetista explicou de outro jeito:

“From fucking estrume, prosperity we have forged!” — Ken Obi, segundo a ata

O Sr. Süle estragou a festa: com toda essa estrutura, a capacidade de projeto da equipe ainda é a quinta do campeonato. “QUINTO?! COM CINQUENTA E OITO MILHÕES NO BANCO?!” O projetista pediu um escritório novo. “More money we spend, more beautiful our failures become”, prometeu. O DON proibiu qualquer obra de dez milhões antes do café.

A reserva resumiu: “Tenho quase pena de não estarmos falidos.” E o Max perguntou por que ninguém falava mais da vitória dele em Dubai. A redação fala. Veja a seção 6.

Um cofre de banco antigo, de porta redonda aberta, tão cheio de maços de dólares que eles transbordam pelo chão de uma garagem de corrida. Em cima da pilha, uma espiga de milho dourada, como troféu. 2021 07 ██ 09:00
O caixa — Cinquenta e oito milhões e uma espiga. A espiga, segundo a Família, é o que gerou o resto.

5. Projeto Peso de Papel

Com cinquenta e oito milhões, um centro de engenharia e o barril da safra de 82, o projetista Ken Obi entregou a caixa de marchas nova. A redação teve acesso à ficha, que vai ao lado.

Cinquenta pontos a menos agora. Trinta e um a menos mesmo depois de todas as melhorias possíveis. E 35 pontos de confiabilidade perdidos no caminho. É a primeira caixa de marchas da história que sai da fábrica já com saudade da anterior.

O Sr. Süle recomendou não instalar. O projetista, segundo quem estava na oficina, chamou a peça de revolução: de tecnologia superior, resultados inferiores. O DON lembrou que um conhecido do Genylson, no começo do ano, melhorou as caixas da equipe em 30 pontos, de graça. E gritou a frase da semana: “TU NÃO CONSEGUE NEM COMPETIR COM O MERCADO INFORMAL!”

O destino da caixa nova é o escritório do projetista, como peso de papel. A reserva duvidou: “Com 65% de fiabilidade, receio que nem consiga manter os papéis no sítio.”

A redação não sabe quem é o conhecido do Genylson. Sabe que o mercado informal do paddock tem endereço: um estacionamento atrás dos boxes, uma van branca maior por dentro do que por fora e um homem de sobretudo que abre o casaco para quem pergunta. A redação não liga uma coisa à outra. Só lembra que ele existe.

Numa escrivaninha bagunçada de oficina, uma caixa de marchas de corrida, pesada e cromada, serve de peso de papel em cima de uma pilha de folhas. Uma janela aberta deixa entrar o vento, e as folhas voam por baixo dela mesmo assim. Ao fundo, um barril de metal e espigas de milho. 2021 07 ██ 16:45
A peça nova — Função atual: peso de papel. Desempenho na função: 65%.

6. Dubai, a corrida que aconteceu duas vezes

Dubai, 15 de julho. O Max Porter, o piloto da placa que diz “Nunca sou totalmente inútil. Sempre sirvo de mau exemplo.”, fez a pole: 1:10.643. A direção da equipe, segundo a crônica interna, abriu uma investigação para saber se o cronômetro estava com defeito. Não estava.

Na primeira curva, o André, que largava em quarto, já liderava. O Max caiu para segundo, administrou os pneus pela primeira vez na carreira e voltou à ponta no ciclo de paradas. Aí a equipe de box decidiu participar: uma troca de pneus de 15,307 segundos, com 2,271 de erro, assinada pelo trocador Edervan Dualib. Advertência; primeira infração. O helicóptero ficou no chão.

Daqui em diante, as testemunhas não concordam.

Na primeira versão, o Max se recupera até o terceiro lugar e, na volta 25 de 31, tenta passar Luc Batoukounou, ex-piloto da Família, hoje na Kirov. Bate. Pelo rádio: “ARRGHH! Sorry guys. Really sorry. That was pathetic.”

Na segunda versão, o Max encontra o mesmo Luc, na mesma volta, e passa. Pelo rádio: “YEAH! Awesome! Feels so good to get past Batoukounou like that!” E vence. O André chega em segundo, a 1,317 segundo, com a volta mais rápida, e responde pelo rádio com a resignação de um bicampeão: “Eh, P2... that's okay, I guess.” Cyril Boissieu, da Boa Esperança, é terceiro.

A federação reconhece só a segunda. A GMA inspecionou os carros e anunciou: “NO RULES BROKEN.” Na Família, segundo a ata, o Sr. Süle explicou ao Max que o acidente aconteceu “numa linha temporal que deixou de existir”, e a Chen informou que o C.H.E.N.™ mantém registro até dos incidentes que foram revertidos. A reserva lembrou que quem deu a segunda oportunidade ao Max não foi o Senhor, foi o DON.

A redação não explica. A redação só registra que, em Dubai, o piloto que sempre serve de mau exemplo venceu, e que pelo menos uma testemunha o viu no muro.

Numa parede de madeira escura da sede de uma equipe, duas placas douradas lado a lado, cada uma com duas espigas de milho e um brasão quadriculado, iluminadas como peça de museu. A da direita, nova, ainda tem o plástico protetor descolando no canto. Embaixo, numa prateleira, um troféu de corrida e um carrinho em miniatura. 2021 07 18 11:05
O mural. A placa da esquerda diz que ele sempre serve de mau exemplo. A da direita, que até um mau exemplo tem seus dias de sorte. Sobrou espaço para uma terceira.

7. Munique: vai chover?

A próxima corrida é Munique: 28 voltas, aceleração e curvas lentas e médias decisivas, consumo de combustível muito alto e pneus que quase não gastam. E chance de chuva nos treinos e na corrida.

Na sede da Família, segundo quem estava lá, foi alerta vermelho. Um mapa da Alemanha na parede, o Instituto Cobra Coral convocado e o Milho Molhado™ em preparação. O projetista chegou com um balde de água marrom. A Chen lembrou que, se chover durante as paradas, um erro de box destrói a vantagem. O DON pediu que ninguém trocasse um pneu de chuva por uma espiga de milho.

“The fucking chuva approaches! From our sacred barrels, wet-weather supremacy we shall summon!” — Ken Obi, segundo a ata

O André garantiu que o Senhor caminhou sobre as águas e que, com fé, o carro também caminhará. A reserva achou a meteorologia o menor dos problemas de uma equipe com um engenheiro que fabrica combustível de estrume, um piloto que atravessa poça por intervenção divina e outro que precisou de duas versões de corrida para fazer uma ultrapassagem.

A Família tem o seu instituto. A concorrência também tem. A redação lembra, sem compromisso, que o patrocinador deste jornal faz chover só no carro do rival.

Num autódromo alemão sob céu carregado, um homem de capa de chuva amarela, de costas, segura um balde cheio de água marrom e olha para as nuvens. Ao lado dele, uma espiga de milho espetada num cone de pista, como antena. 2021 07 ██ 06:30
O Instituto em campo — Um balde, uma espiga e muita fé no céu da Baviera

8. Enquanto isso, na Família

A Família continua lendo este jornal. Na reunião que ela mesma batizou de A Família contra a Radiodifusão, segundo quem estava lá, o DON quis saber quem tinha autorizado o Linhaça a abrir uma rádio. A Chen: “Ninguém, senhor.” E quem tinha autorizado a venda da roda do Max? “O departamento comercial do Linhaça.” O Max: “THAT'S MY WHEEL!” O DON lembrou que ele não conseguiu mantê-la nem durante a corrida.

O Sr. Süle propôs investigar quem forneceu o áudio da equipe. A redação agradece o interesse. A reserva, por sua vez, achou que a roda “está a ter uma carreira mais bem-sucedida do que tu”, e sugeriu contratá-la como titular.

Noutra reunião, A Concorrência Desleal, a Família descobriu o homem do sobretudo da nossa edição extra. O DON: “KEN! TEM UM SUJEITO VENDENDO MERDA DE ALIENÍGENA NO PADDOCK!” O projetista ficou indignado com a concorrência e, em seguida, interessado:

“Superior, the fucking substância may be! Investigate, we must; revolutionary, our next engine shall become!” — Ken Obi, segundo a ata

O Sr. Süle vetou material biológico desconhecido no combustível. A Chen notou que o vendedor oferece uniforme de mecânico com crachá em branco, que entra em qualquer box. O DON: “ISSO EXPLICA MUITA COISA!” A redação não comenta o próprio uniforme. O Max perguntou se a porca que se solta sozinha estava mesmo esgotada. O DON respondeu que ele já tinha ganhado uma, de graça.

A reserva teve a última palavra, e a redação a dedica ao presidente da federação: “É comovente descobrir que ainda conseguimos reconhecer corrupção quando não somos nós a praticá-la.”

Horóscopo do Grão

Doze sementes, doze destinos O astrólogo da redação não lê estrelas: lê relatórios internos. Descubra o seu grão, quem tem cara de quê e quanto custa uma previsão melhor. Com a Zoltaça, que realiza desejos sem estar na tomada. Leia o seu signo → Milho Feijão Amendoim Coco Girassol Arroz Café Mamona Mostarda Soja Chia Linhaça

9. Classificados

Esta seção é um oferecimento de Toró & Urucubaca Chuva para você. Azar para os outros. Vai correr em Munique? O Pajé Toró faz chover só no carro do rival, e o boneco de sabugo vem com a cara de quem você quiser. Conheça os pacotes →

Vende-se ichor, a merda dos deuses. Nitro de origem divina, uma gota por tanque. US$ 1 milhão o frasco, o mesmo preço de uma votação. Tratar com Hermes. Ver o anúncio →

Vende-se caixa de marchas seminova, 65% de confiabilidade. Ótima como peso de papel, desde que não haja vento. Tratar com o projetista.

Procura-se o conhecido do Genylson. Paga-se bem. Assinado: um centro de engenharia com cinquenta e oito milhões.

Compra-se pauta na federação. Pagamento à vista, em dólar. Indecisos, não insistir.

Procura-se parede maior. A das placas do Max está acabando.

Aluga-se segunda chance, uma volta de uso. Devolver antes da volta 25.

Vende-se balde de água marrom, previsão garantida para a Baviera. Tratar com o Instituto, que nega.

Todos os classificados →

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