O presidente da federação cobra US$ 1 milhão para pôr uma votação na pauta. O DON já pagou uma vez.
por El Linhaça, que leu a carta por cima de um ombro
Atualização · 2021 07 23, escrita na praia
Pagou, e era o Weight Stripping. O DON pagou o milhão do presidente da federação. A votação extraordinária foi a do veto ao regime de emagrecimento dos carros, e passou por 8 a 3.
Segundo quem estava na sala, o DON comemorou “MINHA PRIMEIRA VITÓRIA ELEITORAL COMPRADA!”. O Sr. Süle lembrou que, tecnicamente, se pagou pela inclusão na pauta, e que a aprovação veio dos votos.
A redação perguntou e insinuou. Estava certa. E estava de férias: a volta está na edição 5.
1. A carta
2021 07 ██ 23:10
O documento — Papel timbrado, selo dourado e um preço
A carta chegou com o timbre da federação, o selo dourado e a assinatura de quem manda nela: Ernie Hecklerock, presidente da GMA. O mesmo homem que, em maio, assinou a decisão que salvou Yokohama.
Segundo quem a leu, a carta diz, sem rodeios: “Gostaria de propor uma votação extraordinária? Naturalmente, não vou permitir isso sem uma compensação. Um milhão de dólares. Que me diz?”
A redação releu três vezes. Não é uma multa, não é uma taxa e não é uma inscrição. É uma compensação. A federação que fiscaliza o campeonato oferece, a uma equipe, o direito de pôr um assunto em votação. O preço vem no mesmo parágrafo que a oferta.
E o destinatário não é qualquer um. É o chefe da equipe que lidera o campeonato com folga: 88 pontos, cinco vitórias em sete corridas, os dois pilotos em primeiro e segundo. Quem já tem tudo, pelo visto, ainda pode comprar a pauta.
A Família pagou? A redação não sabe. Sabe como a Família reagiu.
2. O precedente
Não é a primeira vez. No ano passado, o DON pagou US$ 1 milhão para propor que Tondela entrasse no calendário de 2021. Tondela é onde a Cruzeiro Real venceu pela primeira vez, e é a pista onde o André, segundo a ficha da federação, corre como especialista.
Na entrevista antes da votação, o autor da proposta declarou-se indeciso. Cogitou se abster da própria proposta. Ganhou por 7 a 5. O voto dele, como o de outro chefe, valia por dois.
Um homem que paga um milhão por uma votação e depois não sabe em quem votar é, para a redação, um homem que já sabe o resultado.
A diferença é que, da outra vez, a iniciativa era da equipe. Agora a federação mandou a proposta pelo correio, com o preço. O mercado amadureceu.
3. O que se vota
A carta não diz o que se votaria. A Família diz, sem querer. Um minuto depois da reunião da tabela de preços, segundo a mesma fonte, o DON convocou outra e anunciou: “SENHORES! QUERO PROIBIR WEIGHT STRIPPING! CANSEI DE PAGAR MILHÕES POR UM MOTOR PARA O MAX TRANSFORMAR METADE DELE EM SUCATA!”
Weight stripping é como o paddock chama o regime de emagrecimento do carro: tira-se tudo o que pesa, para andar mais rápido, e reza-se para o que sobrou aguentar. A Cruzeiro Real é, segundo os próprios documentos, uma das praticantes mais dedicadas do grid. Em Phoenix, o DON admitiu ter emagrecido os dois carros com agressividade.
E tem mais. No ano passado, a Família já tinha pensado em pagar um milhão para proibir o regime. Desistiu, segundo o arquivo dela mesma, porque pagar para proibir uma ferramenta que a própria equipe usava “deixou de parecer atraente”.
O que mudou? O Max. A única corrida que o Max venceu em 2021, Dubai, foi sem emagrecimento nenhum. A Família descobriu que o carro inteiro anda. O homem que mais desmonta carro no paddock quer agora proibir desmontar carro, e a federação oferece a urna pelo preço de sempre.
A redação não diz que as duas reuniões são a mesma conversa. Diz que aconteceram com um minuto de diferença.
2021 ██ ██ 05:20
A dieta — Na balança, o carro. No chão, o que ele perdeu.
4. Rico demais
Um milhão, para a Família, é troco. Em outra reunião, segundo quem estava no salão, o DON apresentou o balanço: US$ 58,7 milhões em caixa. No fim do ano passado eram 41,9. Depois de Phoenix, 55,7. A Cruzeiro Real é a única equipe do grid em que o dinheiro cresce mais rápido que a gasolina acaba.
“TEMOS O MELHOR CARRO, DOIS PILOTOS LIDERANDO O CAMPEONATO E QUASE SESSENTA MILHÕES NO BANCO! ALGUÉM ME EXPLICA COMO A FAMILHA CHEGOU A ESSE ABSURDO?!”, perguntou o DON. O André explicou: o Senhor recompensa os que trabalham com fé. O projetista explicou de outro jeito:
“From fucking estrume, prosperity we have forged!” — Ken Obi, segundo a ata
O Sr. Süle estragou a festa: com toda essa estrutura, a capacidade de projeto da equipe ainda é a quinta do campeonato. “QUINTO?! COM CINQUENTA E OITO MILHÕES NO BANCO?!” O projetista pediu um escritório novo. “More money we spend, more beautiful our failures become”, prometeu. O DON proibiu qualquer obra de dez milhões antes do café.
A reserva resumiu: “Tenho quase pena de não estarmos falidos.” E o Max perguntou por que ninguém falava mais da vitória dele em Dubai. A redação fala. Veja a seção 6.
2021 07 ██ 09:00
O caixa — Cinquenta e oito milhões e uma espiga. A espiga, segundo a Família, é o que gerou o resto.
5. Projeto Peso de Papel
Com cinquenta e oito milhões, um centro de engenharia e o barril da safra de 82, o projetista Ken Obi entregou a caixa de marchas nova. A redação teve acesso à ficha, que vai ao lado.
Cinquenta pontos a menos agora. Trinta e um a menos mesmo depois de todas as melhorias possíveis. E 35 pontos de confiabilidade perdidos no caminho. É a primeira caixa de marchas da história que sai da fábrica já com saudade da anterior.
O Sr. Süle recomendou não instalar. O projetista, segundo quem estava na oficina, chamou a peça de revolução: de tecnologia superior, resultados inferiores. O DON lembrou que um conhecido do Genylson, no começo do ano, melhorou as caixas da equipe em 30 pontos, de graça. E gritou a frase da semana: “TU NÃO CONSEGUE NEM COMPETIR COM O MERCADO INFORMAL!”
O destino da caixa nova é o escritório do projetista, como peso de papel. A reserva duvidou: “Com 65% de fiabilidade, receio que nem consiga manter os papéis no sítio.”
A redação não sabe quem é o conhecido do Genylson. Sabe que o mercado informal do paddock tem endereço: um estacionamento atrás dos boxes, uma van branca maior por dentro do que por fora e um homem de sobretudo que abre o casaco para quem pergunta. A redação não liga uma coisa à outra. Só lembra que ele existe.
2021 07 ██ 16:45
A peça nova — Função atual: peso de papel. Desempenho na função: 65%.
6. Dubai, a corrida que aconteceu duas vezes
Dubai, 15 de julho. O Max Porter, o piloto da placa que diz “Nunca sou totalmente inútil. Sempre sirvo de mau exemplo.”, fez a pole: 1:10.643. A direção da equipe, segundo a crônica interna, abriu uma investigação para saber se o cronômetro estava com defeito. Não estava.
Na primeira curva, o André, que largava em quarto, já liderava. O Max caiu para segundo, administrou os pneus pela primeira vez na carreira e voltou à ponta no ciclo de paradas. Aí a equipe de box decidiu participar: uma troca de pneus de 15,307 segundos, com 2,271 de erro, assinada pelo trocador Edervan Dualib. Advertência; primeira infração. O helicóptero ficou no chão.
Daqui em diante, as testemunhas não concordam.
Na primeira versão, o Max se recupera até o terceiro lugar e, na volta 25 de 31, tenta passar Luc Batoukounou, ex-piloto da Família, hoje na Kirov. Bate. Pelo rádio: “ARRGHH! Sorry guys. Really sorry. That was pathetic.”
Na segunda versão, o Max encontra o mesmo Luc, na mesma volta, e passa. Pelo rádio: “YEAH! Awesome! Feels so good to get past Batoukounou like that!” E vence. O André chega em segundo, a 1,317 segundo, com a volta mais rápida, e responde pelo rádio com a resignação de um bicampeão: “Eh, P2... that's okay, I guess.” Cyril Boissieu, da Boa Esperança, é terceiro.
A federação reconhece só a segunda. A GMA inspecionou os carros e anunciou: “NO RULES BROKEN.” Na Família, segundo a ata, o Sr. Süle explicou ao Max que o acidente aconteceu “numa linha temporal que deixou de existir”, e a Chen informou que o C.H.E.N.™ mantém registro até dos incidentes que foram revertidos. A reserva lembrou que quem deu a segunda oportunidade ao Max não foi o Senhor, foi o DON.
A redação não explica. A redação só registra que, em Dubai, o piloto que sempre serve de mau exemplo venceu, e que pelo menos uma testemunha o viu no muro.
2021 07 18 11:05
O mural. A placa da esquerda diz que ele sempre serve de mau exemplo. A da direita, que até um mau exemplo tem seus dias de sorte. Sobrou espaço para uma terceira.
7. Munique: vai chover?
A próxima corrida é Munique: 28 voltas, aceleração e curvas lentas e médias decisivas, consumo de combustível muito alto e pneus que quase não gastam. E chance de chuva nos treinos e na corrida.
Na sede da Família, segundo quem estava lá, foi alerta vermelho. Um mapa da Alemanha na parede, o Instituto Cobra Coral convocado e o Milho Molhado™ em preparação. O projetista chegou com um balde de água marrom. A Chen lembrou que, se chover durante as paradas, um erro de box destrói a vantagem. O DON pediu que ninguém trocasse um pneu de chuva por uma espiga de milho.
“The fucking chuva approaches! From our sacred barrels, wet-weather supremacy we shall summon!” — Ken Obi, segundo a ata
O André garantiu que o Senhor caminhou sobre as águas e que, com fé, o carro também caminhará. A reserva achou a meteorologia o menor dos problemas de uma equipe com um engenheiro que fabrica combustível de estrume, um piloto que atravessa poça por intervenção divina e outro que precisou de duas versões de corrida para fazer uma ultrapassagem.
A Família tem o seu instituto. A concorrência também tem. A redação lembra, sem compromisso, que o patrocinador deste jornal faz chover só no carro do rival.
2021 07 ██ 06:30
O Instituto em campo — Um balde, uma espiga e muita fé no céu da Baviera
8. Enquanto isso, na Família
A Família continua lendo este jornal. Na reunião que ela mesma batizou de A Família contra a Radiodifusão, segundo quem estava lá, o DON quis saber quem tinha autorizado o Linhaça a abrir uma rádio. A Chen: “Ninguém, senhor.” E quem tinha autorizado a venda da roda do Max? “O departamento comercial do Linhaça.” O Max: “THAT'S MY WHEEL!” O DON lembrou que ele não conseguiu mantê-la nem durante a corrida.
O Sr. Süle propôs investigar quem forneceu o áudio da equipe. A redação agradece o interesse. A reserva, por sua vez, achou que a roda “está a ter uma carreira mais bem-sucedida do que tu”, e sugeriu contratá-la como titular.
Noutra reunião, A Concorrência Desleal, a Família descobriu o homem do sobretudo da nossa edição extra. O DON: “KEN! TEM UM SUJEITO VENDENDO MERDA DE ALIENÍGENA NO PADDOCK!” O projetista ficou indignado com a concorrência e, em seguida, interessado:
“Superior, the fucking substância may be! Investigate, we must; revolutionary, our next engine shall become!” — Ken Obi, segundo a ata
O Sr. Süle vetou material biológico desconhecido no combustível. A Chen notou que o vendedor oferece uniforme de mecânico com crachá em branco, que entra em qualquer box. O DON: “ISSO EXPLICA MUITA COISA!” A redação não comenta o próprio uniforme. O Max perguntou se a porca que se solta sozinha estava mesmo esgotada. O DON respondeu que ele já tinha ganhado uma, de graça.
A reserva teve a última palavra, e a redação a dedica ao presidente da federação: “É comovente descobrir que ainda conseguimos reconhecer corrupção quando não somos nós a praticá-la.”
Vende-se ichor, a merda dos deuses. Nitro de origem divina, uma gota por tanque. US$ 1 milhão o frasco, o mesmo preço de uma votação. Tratar com Hermes. Ver o anúncio →
Vende-se caixa de marchas seminova, 65% de confiabilidade. Ótima como peso de papel, desde que não haja vento. Tratar com o projetista.
Procura-se o conhecido do Genylson. Paga-se bem. Assinado: um centro de engenharia com cinquenta e oito milhões.
Compra-se pauta na federação. Pagamento à vista, em dólar. Indecisos, não insistir.
Procura-se parede maior. A das placas do Max está acabando.
Aluga-se segunda chance, uma volta de uso. Devolver antes da volta 25.
Vende-se balde de água marrom, previsão garantida para a Baviera. Tratar com o Instituto, que nega.